sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Contos 2 (1925-1938
Ernest Hemingway (1899-1961) - Estados Unidos         
Tradução: Ênio Silveira e José J. Veiga      
Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001, 319 páginas





Segundo dos três volumes que reúnem a obra contística completa do Autor, este livro compila 21 narrativas curtas, entre as quais pelo menos três obras-primas da literatura universal: "A vida breve e feliz de Francis Macombe", "As neves do Kilimanjaro" e "Os pistoleiros" - curiosamente, as duas primeiras têm como cenário a África e na outra ressurge Nick Adams, protagonista de 12 dos 28 contos do primeiro volume. Além disso, quase todos as histórias que tematizam a guerra (seja a Primeira Guerra, seja a Guerra Civil Espanhola) são primorosas em sua compreensão do ser humano, com destaque para "O velho na ponte", A volta do soldado", "Agora vou dormir" e a terrível "História natural dos mortos". Também merecem atenção as narrativas que abordam fins de relacionamento amoroso: "Colinas parecendo elefantes brancos" e "Um canário para ela". Estranhamente, não me dizem nada os contos cujos personagens estão envolvidos com o mundo da tourada - "esporte" que o Autor adorava e que motivará todo um romance, "O sol também se levanta" (1926). Neste volume, temos Ernest Hemingway em sua melhor forma.



Avaliação: MUITO BOM  

(Dezembro, 2016)


Entre aspas


"(...) quando se está apaixonado (...) lembra-se de coisas que aconteceram, mas a sensação não é recuperada". (p. 291)

"Revolução é catarse; um êxtase que só pode ser prolongado por tirania". (p. 319)


terça-feira, 29 de novembro de 2016

Memórias de um morto (1918
Hjalmar Bergman (1883-1931) - Suécia         
Tradução: João Reis       
Vila Nova de Gaia: Eucleia, 2011,326 páginas



Trata-se de um romance bastante desigual: o primeiro bloco, que ocupa cerca de 2/3 do livro, é muito bom e funciona como unidade autônoma; o segundo, no entanto, é confuso e inverossímil. A primeira parte, da página 10 a 178, compreende a infância do protagonista, Jan Arnberg, com uma introdução (os dois primeiros capítulos) sobre a origem obscura da família Arnberg (que tinha sido Fält, depois Fältman), envolvendo roubo e assassinato, e que, mais tarde, iria se orgulhar de contar com um bispo (Julius), médicos e advogados. Narrado em primeira pessoa, Jan acompanha as notícias de seu pai, Johann, aventurando-se nos Estados Unidos e ganhando e perdendo dinheiro com um remédio "milagroso" contra tuberculose, e, depois, com a morte de sua mãe, a volta para W., interior da Suécia, onde mantém relações conturbadas com o sogro, o bispo Julius, inflexível em suas predições morais, e com cunhados e concunhados. Johann casa-se em  segundas núpcias com Hedda, com quem já tinha uma filha, Anna, vivendo todos em uma situação de quase miséria, o pai a perseguir invenções inexequíveis. A repetição do destino das personagens - que morrem de tuberculose ou vitimados pelo álcool - e o clima meio onírico no qual a história transcorre faz com que nos lembremos - a angústia da influência - do colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014): poderíamos até mesmo afirmar que Memórias de um morto seria assim uma espécie de Cem anos de solidão protestante. Como exemplo, leiamos o que se segue: : "(...) sofria pelos pecados de seus antepassados, e (...) o seu castigo e também da família, era o de que o mesmo crime tinha de ser perpetuado geração após geração" (pág. 282) ou "Nós, Arnbergs, tornamo-nos ou pecadores ou fantasmas" (pág. 200). Mas, se nessas páginas iniciais há um clima mágico que dá sentido à narrativa, o segundo bloco, que transcorre em Hamburgo, Alemanha, uns 15 anos mais tarde, é recheado de coincidências gratuitas e revelações inexplicáveis que embaralham-se, tornando a história complicada e não complexa. Uma pena, porque a ideia de que Jan, antes mesmo de morrer já está morto, materializada nesta excelente imagem, "O relógio do pai perdeu os ponteiros. Os números estão lá, e o mecanismo faz tique-taque, mas não sei é de manhã ou de tarde, dia ou noite" (pág. 264), não sustenta a pretendida unidade do livro. 


Avaliação: BOM  

(Novembro, 2016)


sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Águas de primavera (1872
Ivan Turgueniêv (1818-1883) - Rússia         
Tradução: Sonia Branco      
Barueri: Amarilys, 2015, 233 páginas





Magnífico romance! Dmitri Pávlovitch Sánin é um jovem aristocrata rural russo de 22 anos, entediado, que, voltando de uma viagem pela Itália, para em Frankfurt para descansar. Cinco horas antes de tomar a diligência para Petersburgo, passando por "uma das ruas mais insignificantes" da cidade (p. 20), acaba salvando por acaso um adolescente de 14 anos, quando conhece sua irmã, Gemma, uma "impetuosa" moça cinco anos mais velha. Embora nascidos na Alemanha, ambos têm origem italiana, filhos que são do fundador da Confeitaria Italiana Giovanni Roselli, tocada pela viúva, Leonora, e por um empregado. Sánin apaixona-se perdidamente por Gemma, mas ela está prometida a Karl Klüber, um promissor comerciante. Sánin adia a viagem de volta à Rússia e começa a frequentar a casa dos Roselli. Um dia, Gemma é ofendida por um jovem oficial alemão e, vendo que o noivo não reage, Sánin toma suas dores e desafia o provocador para um duelo, sem maiores consequências. Mas, a partir daí, Gemma e Sánin se aproximam e ela desiste da relação com Klüber - seria uma banalissima história, caso terminasse por aqui. Porém... Sánin resolve vender suas terras para se casar com Gemma. Antes de viajar para a Rússia, no entanto, esbarra com um antigo colega de infância, Ippolit Sídoritch Pólozov, casado com uma "beldade", Maria Nikoláievna, riquíssima, que "se curava de uma doença qualquer em Wiesbaden", um lugarejo vizinho (p. 155). Pólozov convence Sánin de que a mulher pode comprar suas "almas", evitando o longo e desgastante deslocamento. Entusiasmado, Sánin acompanha-o a Wiesbaden, onde é apresentado a Maria, uma jovem de 22 anos, fútil, sedutora e caprichosa. Em pouco tempo, ele apaixona-se violentamente por ela, esquecendo-se de Gemma, com quem rompe por carta. Sánin, como um escravo, acompanha o casal a Paris e de lá, após ser abandonado pela amante, retorna à Rússia, onde, desiludido e envergonhado, arrasta uma "vida solitária, sem família nem alegrias", cultivando "lembranças do passado" (p. 229). Apesar de os dois últimos capítulos serem de todo desnecessários - formam uma espécie de "que fim levou"... - trata-se de um romance magnífico!




Avaliação: MUITO BOM  

(Novembro, 2016)


terça-feira, 22 de novembro de 2016

Os ratos (1935) 
Dyonélio Machado (1895-1995) - Brasil         
São Paulo: Planeta, 2004, 207 páginas




Um dos melhores romances da literatura brasileira, acompanha 24 horas na vida do pequeno funcionário público Naziazeno Barbosa, homem apático, acuado pela pobreza, dono de uma "preguiça doentia" (p. 53), que tenta arrumar dinheiro para quitar sua dívida com o leiteiro, sob pena de este deixar de fornecer o produto, essencial para o filho "de quase quatro anos" (p.147). Naziazeno consome toda a manhã e a tarde percorrendo as ruas do centro de Porto Alegre na esperança de encontrar alguém - um colega, um agiota - que lhe empreste o dinheiro necessário. Covarde e sem carisma, ele hesita, ele titubeia, ele vacila. No meio da tarde, consegue uma modesta quantia com um conhecido e resolve testar a sorte na roleta, sem sucesso. Somente no começo da noite, com ajuda de dois notórios malandros, Alcides e Duque, é que consegue o dinheiro, por meio do empenho do anel de bacharel de um deles a um tal doutor Mondina. Satisfeito, Naziazeno chega em casa às nove horas da noite, levando queijo, manteiga, um brinquedinho para o filho e o montante da dívida. Ele coloca então as notas em cima da mesa da cozinha para que, na madrugada, o leiteiro as recolha. No entanto, ansioso, Naziazeno imagina, desesperado e impotente, que os ratos estão roendo o dinheiro e é assaltado pela insônia*. Magnífico exemplo de romance social não naturalista, tudo ocorre em um clima nebuloso, como se houvesse um véu impedindo a percepção da realidade pela personagem, que não é protagonista de sua própria vida. Nesse sentido, a singularidade de Naziazeno se erige em símbolo: a da pobreza como alienação de si mesmo. Naziazeno não é sujeito de sua história, mas mero expectador: todos os seus dias são dias inglórios. 



* O narrador antecipa o simbolismo dos ratos, que ocupa os últimos capítulos do romance, primeiro como metáfora: são seus colegas de repartição "que se esgueiram, que se somem com pés de ratos" (p. 46).






Avaliação: OBRA-PRIMA  

(Novembro, 2016)


quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Contos 1 (1925-1938) 
Ernest Hemingway (1899-1961) - Estados Unidos        
Tradução: José J. Veiga     
Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001, 206 páginas



Primeiro dos três volumes que reúnem a obra contística completa do Autor, este livro compila 28 narrativas curtas publicadas na primeira década de sua trajetória literária. Coletânea desigual, no entanto já demonstra, em toda sua expressividade, as características determinantes do estilo hemingwayniano, que iria ser adotado por escritores de várias gerações posteriores, chegando em um determinado momento a se tornar até mesmo cacoete. Frases curtas e diretas quase sem adjetivos, histórias construídas em media res com final em aberto, tramas simples ou mesmo inexistentes, às vezes recortadas como flagrantes fotográficos, às vezes como crônicas jornalísticas - mas sempre permeadas pela profunda compreensão da alma humana*. Doze dos 28 contos têm Nick Adams (alterego do Autor) como personagem - ora protagonista, ora coadjuvante - e pelo menos outros oito apresentam similitudes com ele, aqueles que apresentam jovens casais em desarmonia (como "Mudança de ares" ou "Vinho de Wyoming"). Assim, as histórias de Nick Adams podem ser lidas em paralelo, conformando uma espécie de romance breve ou biografia resumida: sua infância em Wyoming ("Acampamento índio"), os amores da adolescência ("O fim de alguma coisa", "Dez índios"), a juventude no meio da guerra ("Você nunca será assim", "Um dia esperando"), a maturidade ("Pais e filhos"). Lidas algumas histórias, o livro pode nos parecer cansativo pela repetição da estrutura ficcional, mas não há como ignorar que poucos autores conseguem resultados de excelência como "Lá no Michigan", "Acampamento índio", "O médico a mulher do médico", "O fim de alguma coisa", "O lutador", "Dez índios", "Você nunca será assim", "Um dia esperando", "Pais e filhos"...






* Neste aspecto, por mais díspares que possam parecer, o Autor se aproxima sobremaneira do russo Anton Tchekov (1860-1904).





Avaliação: MUITO BOM  

(Novembro, 2016)


Entre aspas


"Todos os sentimentais estão sempre sendo traídos" (p. 195)

sábado, 5 de novembro de 2016


O espelho que foge (1906-1907) 
Giovanni Papini (1881-1956) - Itália        
Seleção: Jorge Luis Borges
Tradução: Maria Jorge Vilar de Figueiredo      
Barcarena: Presença, 2007, 129 páginas



Eis um livro que prova, de maneira cabal, a tese do critico inglês Harold Bloom (1930), da "angústia da influência"*. Os contos de Papini são "borgianos" - no entanto, não é ele discípulo do argentino Jorge Luis Borges (1899-1996), mas sim este, que confessa, na apresentação: "(...) ao reler essas páginas tão remotas, descubro nelas, atônito e reconhecido, histórias que julguei inventar e que reelaborei à minha maneira (...)" (p. 10). Nas dez narrativas que formam a coletânea, nos deparamos com todos os temas caros a Borges, como a questão metafísica do tempo ("O espelho que foge", "O dia não restituído"), o duplo / o espelho ("Duas imagens num tanque", "História totalmente absurda", "Não quero ser mais aquilo que sou", "Quem és tu?", "O suicida substituto"), a vida como sonho ("A última visita do Cavalheiro Doente"), o real como banalidade  ("Uma morte mental", "O mendigo de almas"). Claro, Papini não tem a estatura de Borges: seu narrador é sempre o mesmo - (...) já me narrei tantas vezes a mim mesmo  nos meus contos (...)" (p. 99) -, o que torna a sucessão de tramas enfadonha e quase previsível. Ainda assim, cabe destacar a sua poderosa imaginação e a reflexão que oferece a respeito da tensão entre realidade e fantasia, tema recorrente nos dias de hoje na ficção.



* Muito se falou sobre a presença de Franz Kafka (1883-1924) na obra do brasileiro Murilo Rubião (1916-1991), que sempre a negou, alegando inclusive que só veio a ler o autor tcheco de expressão alemã após publicar seu primeiro livro, "O ex-mágico", em 1947. No entanto, é inegável a influência de Papini, que Rubião certamente conhecia, publicado por aqui a partir da década de 1930.



Avaliação: BOM  

(Novembro, 2016)


Entre aspas


"Toda a sua vida é feita de sonhos, ideais, projetos, expectativas; todo o seu presente é feito de pensamentos em torno de seu futuro. Tudo aquilo que existe, que é presente, nos parece obscuro, mesquinho, insuficiente, inferior, e só nos consolamos pensando que todo presente não passa de um prefácio, um longo e fastidioso prefácio para o belo romance do futuro. É graças a essa fé que vivem todos os homens, quer o saibam, quer não." (p. 20)

"E descobrirão esta coisa tremenda; que o futuro não existe como futuro, que o futuro é apenas uma criação e uma parte do presente, e que suportar uma vida inquieta, uma vida triste, uma vida dolente, por causa desse futuro que dia a dia nos foge e se afasta de nós, é a estupidez mais dolorosa desta vida tão estúpida." (p. 21)

"Lembrava-me muitas vezes dessa querida cidade, tão só no meio da planura, como uma exilada - sempre pensei que também existem cidades desterradas de sua verdadeira pátria (...)" (p. 23-24)  

"(...) só o impossível se torna às vezes real (...) " (p. 26)

"(...) os homens sorriem sempre, quando não compreendem nada." (p. 44)



quarta-feira, 2 de novembro de 2016

1912 + 1 (1986) 
Leonardo Sciascia (1912-1989) - Itália        
Tradução: Tizziana Giorgini     
Rio de Janeiro: Rocco, 1987, 84 páginas


Livro de difícil definição - reportagem?, ensaio?, ficção histórica? -, mesmo para o autor (v. pág. 75), chamemo-lo de conto longo ou romance curto. 1912 + 1 era como os supersticiosos referiam-se a 1913, para evitar mencionar o número 13... Ano terrível, que prepara a Humanidade para a chamada Grande Guerra, a mais mortífera de todos os tempos, que durou de 1914-1918. Mas não é sobre a guerra essa narrativa, mas sobre um crime real ocorrido em San Remo, que abalou a Itália naquele longínquo 1913. A condessa Maria Tiepolo - pertencente a uma família veneziana "(...) que produzira um doge e uma rainha (...)" (p. 54) - assassinou com um tiro no rosto Quintilio Polimanti, ordenança (espécie de ajudante militar) de seu marido, o capitão do Exército, Ferruccio Oggioni. O que teria motivado Maria, "(...) bela mulher de trinta e cinco anos, casada há doze (...)", mãe de um menino de nove anos e de uma menina de oito, a matar o belo e forte Quintilio, "(...) jovem de vinte e dois anos"? (p. 59). O Autor recupera os autos do rumoroso processo e tenta compreender, à luz do fim dos anos 1980, as reações apaixonadas das várias camadas da sociedade do começo do século XX, além de expor as falhas de um sistema jurídico caduco. Irônico, sofisticado e culto, o narrador se permite até mesmo dar o seu palpite sobre as causas do delito.





Avaliação: MUITO BOM  

(Novembro, 2016)


Entre aspas


"O problema do viver e do morrer dos homens é que Deus existe, mas saber-se-á dele, quando mortos, menos do que se sabia quando vivos (...)" (p.70)