segunda-feira, 27 de março de 2017

O Pai Goriot (1835)
Honoré de Balzac (1799-1850) - FRANÇA 
Tradução: Gomes da Silveira   
São Paulo: Biblioteca Azul, 2012, 321 páginas



O Pai Goriot é um dos títulos presentes neste quarto volume de A Comédia Humana, ciclo monumental onde o Autor enfeixou, organizando e conectando, sua obra inteira. Neste romance, estratégias narrativas típicas do Romantismo encontram-se subordinadas a uma abordagem temática definitivamente realista. Os traços românticos podem ser entrevistos na existência de um "vilão" com dupla identidade (Vautrin, que é na verdade Jacques Collin, conhecido no submundo como "Engana-A-Morte"), na condução que provoca o desfecho abrupto da trama em um espaço único e em um período de tempo bastante exíguo (no caso, em apenas um dia todos os nós da história são desfeitos) e nos diálogos teatrais que beiram ao melodrama (principalmente, no encontro entre as filhas, a baronesa Delphine de Nucingen e a condessa Anastasie de Restaud*, com o pai delas, Jean-Joachim Goriot, em um quarto miserável de pensão). É curioso que, embora o romance tenha como foco a relação trágica entre o pai amoroso, ciumento e possessivo, Goriot, com suas filhas, fúteis, injustas e ingratas, o livro versa muito mais sobre o duro aprendizado do jovem estudante Eugène de Rastignac sobre o funcionamento do lamaçal que constitui a alta sociedade parisiense, hipócrita, cínica e cruel**. Rastignac chega a Paris, vindo do interior, para estudar Direito, mas logo deslumbra-se com as luzes da cidade. Morando na modesta pensão da Sra. Vauquer, percebe que, caso queira enfronhar-se entre os aristocratas, teria que fazer opções éticas e morais. Descobre um parentesco longínquo com a viscondessa de Béauseant e, por meio dela, passa a frequentar as festas, os jantares, o teatro, com dinheiro extorquido, em chantagens emocionais, de sua mãe e irmãs***. Logo aproxima-se da condessa de Restaud e em seguida da baronesa de Nucingen, que, descobre, são filhas de seu vizinho de pensão, Goriot, um comerciante que enriqueceu especulando com trigo durante a Revolução Francesa e que retirou-se, por imposição dos genros, por ser burguês e "revolucionário" - a história se passa na época da Restauração, ou seja, quando a antiga monarquia retorna ao poder. Rastignac compreende a podridão em que está se metendo e decide, no final, aceitar as regras propostas. A narrativa, edificada em personagens complexos e multifacetados, exibe as entranhas da alta sociedade, deixando-nos uma lição: "O segredo das grandes fortunas sem causa aparente é um crime esquecido porque o serviço foi bem feito" (p. 143). 
  

(Março, 2017)


Curiosidades:


* É incompreensível porque os tradutores transliteravam os nomes de alguns personagens - Eugène vira Eugênio, Delphine vira Delfina, Anastasie vira Anastácia, mas Jacques... se mantém Jacques... Ainda bem que os tradutores modernos mantêm os nomes próprios tais quais encontram-se no texto original.
** Vale a pena observar o perfeito retrato traçado pelo cínico Vautrin sobre a sociedade francesa do começo do século XIX (p. 136 e seguintes) - que, infelizmente, em nada se diferencia do Brasil de hoje: "Sabe como é que a gente faz carreira aqui? Pelo brilho da inteligência ou pela habilidade da corrupção. É preciso penetrar nessa massa humana, como um projétil de canhão, ou insinuar-se no meio dela como uma peste. A honestidade não serve para nada".  
*** A trajetória de Eugène de Rastignac é a mesma de Lucien de Rubempré, protagonista de Ilusões perdidas (1836-1843), outro romance de Balzac. Ambos são jovens que chegam do interior, membros de uma pequena aristocracia falida, ambiciosos e ingênuos, que chantageiam os parentes pobres para poder brilhar na sociedade parisiense. 




Avaliação: MUITO BOM     



quarta-feira, 15 de março de 2017

Contos - uma antologia (Volume 1)
Machado de Assis (1839-1908) - BRASIL  
Seleção: John Gledson  
São Paulo: Companhia das Letras, 2001, 421 páginas 




Dos "cerca de duzentos contos" (p. 15) escritos pelo Autor, os dois volumes desta antologia reúnem 75 entre os melhores. Neste primeiro volume, que abrange 21 narrativas, o Organizador escolheu três histórias da primeira coletânea lançada pelo Autor, Contos Fluminenses, de 1870 ("Frei Simão", "Confissões de uma viúva moça" e "Miss Dollar"), uma da segunda coletânea, Histórias da Meia-Noite, de 1873 ("A parasita azul"), oito não recolhidas em livro ("Três tesouros perdidos", "Virginius", "Mariana", "A chinela turca", "Uma visita de Alcibíades", "O machete", "Na arca" e "Folha rota") e todas as nove constantes de Papéis avulsos, de 1882 ("O alienista", "Teoria do medalhão", "D. Benedita", "O segredo do bonzo", "O anel de Polícrates", "O empréstimo", "A Sereníssima República", "O espelho" e "Verba testamentária"). Em onze dos doze contos do período dito "romântico", que antecede à publicação de Memórias póstumas de Brás Cubas, em 1881, o Autor mostra-se ainda titubeante no tratamento dos motes, embora já se possam distinguir sua marca estilística - que, evidentemente vai se espessar ao longo do tempo - e sua visão de mundo, progressista, mas pessimista. De maneira ainda sutil, ele se insurge contra o modelo de sociedade da época, criticando os casamentos arranjados("Frei Simão"), a escravidão ("Virgínius") e até o "gênero ultra-romântico" (p. 221) ("A chinela turca"). Outros temas, que serão desenvolvidos e aprofundados mais tarde, também já se encontram presentes, como a figura do canalha, nas ousadas "Confissões de uma viúva moça"; o olhar desalentado a respeito da Humanidade, desde sua origem "Na arca"; e a insatisfação com os caminhos que escolhemos para trilhar ao longo da vida*("O machete"). A exceção desta primeira fase é "Mariana", texto magnífico de 1871, crítica direta e contundente à escravidão, ao racismo e à hipocrisia. Os contos "realistas", enfeixados em Papéis avulsos, exibem o Autor em sua plenitude. "O alienista", conto longo, quase um pequeno romance, questiona o conceito de sanidade mental; "Teoria do medalhão" expõe o pragmatismo cínico da política; "O empréstimo"***, o caráter movediço das nossas ações; "A Sereníssima República"***retoma o mote de "Na arca" para, de maneira alegórica, mostrar a inviabilidade de organização do ser humano, por conta de seu egoísmo; "O espelho" é um exame da sociedade que vive das aparências. Esses seis últimos contos garantem a Machado de Assis figurar na reduzida galeria dos melhores escritores de todos os tempos em qualquer língua. 
   

(Março, 2017)


Curiosidades:


* O casamento, segundo a viúva moça: "Entramos no nosso lar nupcial como dois viajantes estranhos em uma hospedaria, e aos quais a calamidade do tempo e a hora avançada da noite obrigam a aceitar pousada sob o teto do mesmo aposento" (p. 106). Este conto é de 1864! 

** Este tema, que voltará mais vezes na prosa do Autor (V. por exemplo, "Cantiga de esponsais" e "Um homem célebre"), foi tratado também no poema "Círculo vicioso", publicado no volume Poesias Completas, de 1901. 


Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
- "Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
que arde no eterno azul, como uma eterna vela!"
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

- "Pudesse eu copiar o transparente lume, 
que, da grega coluna à gótica janela,
contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!"
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:

- "Mísera! tivesse eu aquela enorme, aquela 
claridade imortal, que toda a luz resume!"
Mas o sol, inclinando a rútila capela:

- "Pesa-me esta brilhante auréola de nume... 
Enfara-me esta azul e desmedida umbela...
Porque não nasci eu um simples vaga-lume?"...


*** V., sob outra perspectiva, o capítulo XXI - O almocreve, de Memórias póstumas de Brás Cubas (p. 141-142)

**** Este conto deve muito a Viagens de Gulliver (1726 e 1735), do inglês Jonathan Swift (1667-1745). Compare a descrição dos partidos políticos de Liliput com os estudados pelo Cônego Vargas (p. 396).





Avaliação: MUITO BOM     


Entre aspas:



"O ridículo é uma espécie de lastro da alma quando ela entra no mar da vida; algumas fazem toda a navegação sem outra espécie de carregamento". (p. 132)

sexta-feira, 10 de março de 2017

Os melhores contos da
 América Latina
Organização: Flávio Moreira da Costa  
Tradução: Leo Schlafman e outros  
Rio de Janeiro: Agir, 2008, 582 páginas




Esta antologia (80 contos de 73 autores) traça um bom panorama da literatura produzida na América Latina (Brasil e países hispanofalantes), desde os seus primórdios - o livro começa com um extrato do Popol Vuh, texto original maia de época indeterminada - até escritores do final do século XX.  Sobressaem de forma categórica alguns nomes: o brasileiro Machado de Assis (1836-1908) se destaca solitário no século XIX, enquanto o argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), o mexicano Juan Rulfo (1917-1986) e o colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014) dominam o século XX. A seleção brasileira é muito boa (Lima Barreto, Mário de Andrade, Lygia Fagundes Telles, Clarice Lispector, Rubem Fonseca, Dalton Trevisan, João Ubaldo Ribeiro, entre outros). Vale a pena colocar em relevo ainda, em meio a tantos nomes, os argentinos Adolfo Bioy Casares, Julio Cortázar e Ricardo Piglia, os chilenos José Donoso e Roberto Bolaño e o cubano Guillermo Cabrera Infante. É inacreditável, no entanto, que continuemos desconhecendo a obra do peruano Julio Ramón Ribeyro e do uruguaio Mario Arregui - estes, pelo menos, tiveram livros publicados por aqui, ao contrário do silêncio editorial que recai sobre os mexicanos Rosario Castellanos e  o excelente José Emilio Pacheco e o venezuelano Ednodio Quintero. Mais grave apenas a maneira como é subestimado o ótimo escritor gaúcho Sergio Faraco, sem dúvida um dos maiores contistas brasileiros.




Curiosidade:

* Já tive ocasião de ressaltar - no comentário acerca de Contos latino-americanos eternos, publicado em 18/02/2016 - o ponto de convergência existente entre a narrativa do argentino Leopoldo Lugones (1874-1938), "Yzur", e "Um relatório para uma academia", de Franz Kafka (1933-1924). Ambos têm por tema a tentativa de "humanizar" um macaco, com resultados trágicos. O texto do argentino é de 1926, o de Kafka, de 1920, mas certamente o primeiro não leu o último...





(Março, 2017)


Avaliação: BOM     

quarta-feira, 8 de março de 2017

O velho negro e a medalha (1956)
Ferdinand Oyono (1929-2010) - CAMARÕES 
Tradução: Wilma Ronald de Carvalho   
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, s/d, 207 páginas



Escrito em francês, trata-se de um libelo anticolonialista, que descreve, com humor trágico, a total incompreensão e desprezo dos europeus pela cultura africana. Laurent Meka, descendente do grande chefe da etnia Mvema, é um fantasma - "(...) não estava nem com os seus, nem com os outros [os franceses]" (p. 108), já que se convertera ao catolicismo, abandonando as crenças dos antepassados. Meka, cujo pai havia sido rico e poderoso, doara suas propriedades para a Igreja, e agora vivia em uma choupana miserável, subsistindo da colheita de cacau. Por "(...) facilitar a obra da França neste país" (p. 28) - além de abrir mão das terras, dois de seus filhos combateram na segunda guerra, onde "(...) tiveram uma morte gloriosa" (p. 28) - ele é destacado para ganhar uma medalha no dia 14 de julho, data nacional da Metrópole. A notícia causa comoção na região, e, orgulhoso, Meka prepara-se, com esmero, para receber a condecoração das mãos do Alto Comissário, que viria de Timba até Doum especialmente para isso. No dia festivo, incomodado com os sapatos apertados e com a roupa desconfortável e de pé sob um sol inclemente, o Chefe dos brancos espeta-lhe a medalha no peito, dirige-lhe algumas palavras elogiosas, que o intérprete resume impaciente, e convida-o a participar do vinho de honra no galpão de zinco que denominam Centro Africano. Terminada a cerimônia, entretanto, Meka perde a importância, é esnobado pelos brancos - incluindo o padre Vandermeyer - e, após abusar do uísque, adormece e acaba esquecido no local. Ao acordar de noite, assustado, debaixo de uma tromba d'água, vaga sem rumo até penetrar, sem querer, no bairro europeu, vetado aos nativos, onde é preso. Depois de pernoitar na cadeia, é reconhecido como o velho negro da medalha e solto. No entanto, ofendido em sua honra, Meka se insurge contra a política dos brancos - "Quem poderia imaginar que os chefes de ontem seriam os escravos de hoje?" (p. 164) - e contra a religião - "Todas as suas superstições tinham renascido no espírito, varrendo como uma onda de maremoto os anos de ensinamentos e práticas cristãs" (p. 173), contaminando a gente da aldeia: "Não sei até onde irão os brancos! (...) Nada do que veneramos tem importância para eles. Nossos costumes, nossas histórias, nossos remédios, nossos homens velhos, tudo é igual aos negócios dos seus boys..." (p. 183), conclui Essomba, um de seus parentes. A bem da verdade, antes de Meka, sua mulher, Kelara, já havia compreendido a fraude daquele tributo: "Meus filhos, meus pobres filhos, vocês foram vendidos como Judas vendeu o Senhor... (...) Vocês valem, os dois, meus pobres queridos, uma medalha..." (p. 124). O narrador não poupa crítica aos colonizadores: a hipocrisia do administrador, M. Fouconi, que "vivia com uma mulher nativa, que escondia no depósito de móveis, no porão, quando recebia os compatriotas" (p. 61); o desdém do Alto Comissário, quando convidado a compartilhar um bode com Meka (p. 131-132); a falsidade do padre Vandermeyer que expulsava dos arredores da igreja os "(...) mendigos esfarrapados (...)" (p. 176); a violência policial (p. 148-167); o racismo, a exploração... Afastados de suas crenças originais, tentando mimetizar os valores estrangeiros - "Agora que o marido vai receber uma medalha, ela [Kerala, a mulher de Meka] se tornará uma mulher branca" (p. 45) - e perdendo até mesmo os nomes - "(...) depois da Segunda Guerra (...) tudo era De Gaulle (...) O retrato do general estava pregado nas paredes de todas as choupanas. Havia De Gaulle meninas. De Gaulle meninos" (p. 76) - a pergunta que permanece reverberando após o fim do livro é: "(...) será que existe verdadeiramente alguma coisa que nos pertença, no sentido como o entendiam nossos ancestrais, desde que os brancos estão neste país?" (p. 182).


(Março, 2017)


Avaliação: BOM     


terça-feira, 7 de março de 2017

No caminho de Swann (1913)
Marcel Proust (1871-1922) - FRANÇA 
Tradução: Mário Quintana  
São Paulo: Abril Cultural, 1979, 247 páginas



Primeiro volume do monumental ciclo Em busca do tempo perdido, esta narrativa se divide em três partes quase autônomas, embora a última sirva como uma espécie de amálgama do enredo. O Autor consegue uma proeza: em um estilo originalíssimo, no qual importa muito mais as sugestões sensoriais que propriamente o andamento da história, constrói uma crônica da alta sociedade francesa, na qual o protagonista mostra-se a um só tempo fascinado e desencantado com o ambiente que frequenta e descreve. A primeira parte do livro, "Combray", é uma belíssima recriação da infância do narrador na aldeia onde a família passava férias, quando emerge sua adoração obsessiva pela mãe - "com que gosto eu não daria tudo isto para poder chorar toda a noite nos braços de mamãe!" (p. 110). Escrita na primeira pessoa, no momento em que "(...) a vida vai agora mais e mais emudecendo em redor de mim (...)" (p. 27), a evocação do passado nasce de uma sensação provocada pelo gosto de uma madalena - "(...) bolinhos pequenos (...) que parecem moldados na valva estriada de uma concha de S. Tiago" (p. 31) -, oferecida pela mãe do protagonista, então adulto, e que ativa em sua memória a lembrança de um outra madalena, experimentada com sua tia-avó Léonce, em Combray. Lá, descobre sua vocação para a literatura - "Tens uma bela alma, de qualidade rara, uma natureza de artista, não a deixes em falta do que lhe é preciso", vaticina Legrandin, um engenheiro "(...) mais letrado que muitos literatos (...)" (p. 45), ele também escritor; forma sua ideia a respeito do sadismo, quando vê, de longe, a amiga da filha do velho professor de piano, Sr. Vinteuil, cuspir no retrato deste, recém-falecido, antes de manterem relação sexual (p. 97-100); e conhece Charles Swann. A patética paixão de Swann, de uma estirpe de financistas, pela cortesã Odette de Crécy ocupa toda a segunda parte do livro, "Um amor de Swann", na qual o narrador da primeira parte assume uma terceira pessoa onisciente. Swann, até conhecer Odette, era um "puro mundano", que "(...) não procurava achar bonitas as mulheres com quem passava o tempo, mas sim passar o tempo com as mulheres que primeiro achara bonitas", pertencessem elas à aristocracia, fossem elas costureirinhas moradoras de cortiços (p. 117). Entretanto, Swann deixa de frequentar os salões elegantes e os espetáculos refinados para ligar-se a Odette, uma mulher vulgar, que possuía "(...) mau gosto (...) em todas as coisas (...)" (p. 145), infiel, grosseira. No final do capítulo, após vexames, humilhações e desonra, conclui: "E dizer que estraguei anos inteiros de minha vida, que desejei a morte, que tive o meu maior amor, por uma mulher que não me agradava, que não era meu tipo!" (p. 222). O narrador conduz seu personagem pelos círculos fúteis da aristocracia - onde o que importa é "(...) ter um nome autêntico e antigo (...)" (p. 197) e profundamente anti-semita (v. p. 195) - e pelos recintos extravagantes da burguesia, no caso, a residência do Sr. e Sra. Verdurin, onde, com o poder do dinheiro, tentam em tudo imitar o comportamento e copiar os valores da aristocracia. Na terceira parte, "Nomes de terras: o nome", o narrador retoma a primeira pessoa e descreve uma passagem, na pré-adolescência, na qual se enamora de Gilberte, filha de Swann, repetindo, quase literalmente, o desconforto provocado pela paixão patética deste por Odette - "(...) como acontecia outrora com Swann quanto ao caráter estético de Odette (...)" (p. 238), confessa. E, afinal, revela que a Sra. Swann, mencionada na primeira parte do livro, e a qual sua família repelia, é... Odette, com quem Swann acabou por casar-se...
    

(Março, 2017)


Avaliação: MUITO BOM     


Curiosidades:


1) Um dos melhores poemas da língua portuguesa, intitulado "Este quarto", de autoria de Mário Quintana (1906-1994), tradutor do livro, certamente foi inspirado neste trecho, quando Legrandin fala com o narrador: "'Que o céu permaneça azul para você, meu jovem amigo; e mesmo na hora, que para mim vem chegando, em que o bosque é já sombrio e a noite cai depressa, você há de consolar-se, como eu faço, olhando para o lado do céu'. Tirou um cigarro do bolso e ficou a olhar longamente o horizonte." (p. 75) Eis o poema:

Este quarto de enfermo, tão deserto
de tudo, pois nem livros eu já leio
e a própria vida eu a deixei no meio
como um romance que ficasse aberto...

que me importa este quarto, em que desperto

como se despertasse em quarto alheio?
Eu olho o céu! imensamente perto,
o céu que me descansa como um seio.

Pois só o céu é que está perto, sim,

tão perto e tão amigo que parece
um grande olhar azul pousado em mim.

A morte deveria ser assim:

um céu que pouco a pouco anoitecesse
e a gente nem soubesse que era o fim...

2) Em outro trecho, ao contrário, é Proust que claramente se inspira em seu compatriota, Charles Baudelaire (1821-1867): "(...) chegando em casa, [Swann] sentiu necessidade dela [Odette de Crécy], como um homem que, ao ver passar uma mulher entrevista um momento na rua, sente que lhe entra na vida a imagem de uma beleza nova que dá maior valor à sua sensibilidade, sem que ao menos saiba se poderá algum dia rever aquela a quem já ama e da qual o nome ignora" (p. 125). Eis o poema de Baudelaire, "A uma passante", na tradução do poeta Ivan Junqueira (1934-2014):


A rua em torno era um frenético alarido.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão suntuosa
Erguendo e sacudindo a barra do vestido.

Pernas de estátua, era-lhe a imagem nobre e fina.
Qual bizarro basbaque, afoito eu lhe bebia
No olhar, céu lívido onde aflora a ventania,
A doçura que envolve e o prazer que assassina.

Que luz… e a noite após! – Efêmera beldade
Cujos olhos me fazem nascer outra vez,
Não mais hei de te ver senão na eternidade?


Longe daqui! tarde demais! “nunca” talvez!
Pois de ti já me fui, de mim tu já fugiste,
Tu que eu teria amado, ó tu que bem o viste!


3) Proust desenvolve uma verdadeira teoria do romance, à pág. 55: "(...) todos os sentimentos que nos fazem experimentar a alegria ou o infortúnio de um personagem real só se produzem em nós por intermédio de uma imagem dessa alegria ou desse infortúnio; todo o engenho do primeiro romancista consistiu em compreender que, sendo a imagem o único elemento essencial na estrutura de nossas emoções, a simplificação que consistisse em suprimir pura e simplesmente os personagens reais seria um aperfeiçoamento decisivo. Um ser real, por mais profundamente que simpatizemos com ele percebemo-lo em grande parte por meio de nossos sentidos, isto é, continua opaco para nós, oferece um peso morto que nossa sensibilidade não pode levantar. Se lhe sucede uma desgraça, esta só nos pode comover numa pequena parte da noção total que temos dele, e ainda mais, só numa pequena parte da noção total que ele tem de si mesmo é que a sua própria desgraça o poderá comover. O achado do romancista consistiu na ideia de substituir essas partes impenetráveis à alma por uma quantidade igual de partes imateriais, isto é, que nossa alma pode assimilar. Desde esse momento, já não importa que as ações e emoções desses indivíduos de uma nova espécie nos apareçam como verdadeiras, visto que as fizemos nossas, que é em nós que elas se realizam e mantêm sob o seu domínio, enquanto viramos febrilmente as páginas, o ritmo de nossa respiração e a intensidade de nosso olhar. E uma vez que o romancista nos pôs nesse estado, no qual, como em todos os estados puramente interiores, cada emoção é duplicada, e em que o seu livro nos vai agitar como um sonho, mas um sonho mais claro do que aqueles que sonhamos a dormir e cuja lembrança vai durar mais tempo, eis que então ele desencadeia em nós, durante uma hora, todas as aventuras e todas as desgraças possíveis, algumas das quais levaríamos anos para conhecer na vida, e outras, as mais intensas dentre elas, jamais nos seriam reveladas, pois a lentidão com que se processam nos impedem de as perceber (...)".

4) Sobre o talento: "Somos muito lentos em reconhecer na fisionomia particular de um novo escritor o modelo que traz o nome de 'grande talento' em nosso museu das ideias gerais. Por isso mesmo que essa fisionomia é nova, não a achamos absolutamente parecida com o que chamamos de talento. Dizemos antes originalidade, encanto, delicadeza, força; e depois um dia descobrimos que tudo isso era justamente talento". (p. 63)





Entre aspas:



"Tentamos achar nas coisas, que por isso nos são preciosas, o reflexo que nossa alma projetou sobre elas, e desiludimo-nos ao verificar que as coisas parecem desprovidas, na natureza, do encanto que deviam, em nosso pensamento, à vizinhança de certas ideias; e muitas vezes convertemos todas as forças dessa alma em habilidade, em esplendor, para influir em seres que sentimos situados fora de nós e que jamais alcançaremos." (p. 56)

“(...) os impulsos de sensibilidade têm pouco domínio sobre a continuidade de nossos atos e a conduta de nossa vida, e (...) o respeito das obrigações morais, a fidelidade dos amigos, a execução de uma obra, a observância de um regime, têm fundamento muito mais seguro nos hábitos cegos do que nesses transportes momentâneos, ardentes e estéreis". (p. 60-61)

"Não há talvez uma pessoa, por maior que seja a sua virtude, que a complexidade das circunstâncias não posso levar um dia a viver na familiaridade do vício que mais formalmente condena (...)". (p. 91)

"(...) as terras que desejamos ocupam a cada momento muito mais espaço em nossa vida verdadeira do que a terra onde efetivamos nos achamos". (p. 227)

"(...) não se ama a ninguém mais quando se ama." (p. 232)



segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A volta ao mundo em 80 dias (1872)
Jules Verne (1828-1905) - FRANÇA 
Tradução: André Telles  
Rio de Janeiro: Zahar, 2017, 231 páginas




Trata-se de um curioso romance de aventura. Fico pensando como os leitores antepassados deveriam acompanhar ansiosos o desdobramento dessa intrépida viagem por lugares exóticos, capítulo a capítulo, que mantêm, aliás, mais ou menos, o mesmo tamanho, demonstrando o rigoroso esforço na sua composição. O Autor, de posse de informações sobre as novidades tecnológicas de sua época e das mais recentes notícias sobre países distantes, abriu seu exemplar do Bradshaw's Continental Railway Steam Transit and General Guide (um guia com horários de partidas de chegadas de trens e navios) e deixou sua imaginação trabalhar. A partir de uma aposta no valor de 20 mil libras, feita com colegas frequentadores do Reform Club, de Londres, o fleumático Mr. Phileas Fogg desafia o tempo e o espaço e junto com seu fidelíssimo secretário francês, Jean Passepartout, resolve dar a volta ao mundo em apenas 80 dias. Ao longo do percurso surgem inúmeros obstáculos, que deverão ser superados por meio da sorte e da engenhosidade. Linhas ferroviárias interrompidas, resgate de uma indiana (Mrs. Alda) condenada a morrer queimada com o marido, pontes que desabam, ataques de índios, perdas de conexões - e um detetive, Mr. Fix, que, certo de que Mr. Phileas Fogg é um ladrão de bancos disfarçado de aventureiro, persegue-o desde Suez, no Egito, até Dublin, na Irlanda... Após usar todos os meios de transporte disponíveis - navio, trem, coche, escuna, cargueiro, trenó, elefante - o protagonista chega a Londres... cinco minutos atrasado... Mas um erro de cálculo o salvará... O livro termina da forma mais romântica: pedido em casamento por Mrs. Alda, Phileas Fogg aceita. O narrador conclui: "O que ganhara com aquele deslocamento? O que trouxera daquela viagem? / Nada, dirão vocês. Concordamos, nada, a não ser uma mulher encantadora, que (...) fez dele o homem mais feliz do mundo! / Francamente, não daríamos a volta ao mundo por menos que isso?" (p. 231). Uma ode à ingenuidade para combater esses tempos cínicos.



(Fevereiro, 2017)


Avaliação: BOM     


domingo, 19 de fevereiro de 2017

O trovão entre as folhas (1953)
Augusto Roa Bastos (1917-2005) - PARAGUAI  
Tradução: Campos Alberto 
Luanda: Instituto Nacional do Livro e do Disco, 1980, 231 páginas 



Esta coletânea, que reúne 17 contos, prova que boas intenções dificilmente redundam em boa literatura. Disposto a descrever a vida de "seres puros e inocentes" (p. 103), o Autor se esmera em comover-nos contra a opressão econômica e política (que, ao fim e ao cabo, convergem para o mesmo resultado) da população miserável de seu país, o Paraguai, que não difere em nada da situação de outros povos do Terceiro Mundo. O problema é que, para isso, promove uma visão maniqueísta da realidade, o que, ao invés de nos provocar empatia, nos causa apenas piedade, sentimento que não leva à transcendência, fundamental para a constituição da obra de arte. No afã de denunciar, o Autor carrega nas tintas naturalistas - ou seja, exacerba o real, distorcendo-o -, aproximando-se muitas vezes, para alcançar melhor seu objetivo, do mais descabelado romantismo. Inverossímeis, por isso, histórias como a da menina alemã que desaparece com os barqueiros nômades ("Os caçadores de capibaras"); a volta de um rapaz para casa, após três anos, na hora mesma em que o irmão está sendo fuzilado ("Regresso"); o reconhecimento que um homem faz de que a prostituta com quem foi para a cama é sua antiga companheira, de quinze anos antes ("Feira em dois tempos"); a morte do filho pela mãe ("Pirulí"); um combatente que enterra vivo, sem saber, o irmão querido ("O prisioneiro"); a figura de um anão monstruoso, assassino em série de crianças ("Túmulo vivo"). Outros contos constituem-se em anedotas, como "Mão cruel", "Audiência privada", "A imploração" e "A grande solução", cujo enredo desdobra-se para um final que se quer surpreendente, mas que se mostra tão somente frustrante. Há umas poucas narrativas que poderiam se salvar da impressão geral negativa que o livro nos deixa - "O velho senhor bispo", "O trovão entre as folhas" e principalmente o fim trágico de um prisioneiro político em "A escavação" e a cena de estupro coletivo em "Aqueles rostos escuros" -, mas a mão pesada do Autor pinta tudo com cores chapadas, sem qualquer nuance. Sua almejada solidariedade para com os "seres cinzentos que passam pela vida como uma leve lufada anônima" (p. 93) torna-se estranha, já que retrata seus personagens como primitivos incapazes de reações que não sejam instintivas, e não como homens e mulheres dotados de sentimentos próprios. Talvez essa sensação decorra do fato de o Autor propugnar a fantasiosa e populista ideia de "bondade natural" (p. 95) que transformaria "o verdadeiro homem do povo" em um "autêntico e flagrante revolucionário" (p. 201). 

(Fevereiro, 2017)

Avaliação: NÃO GOSTEI