quinta-feira, 21 de setembro de 2017

A voragem (1924)
José Eustasio Rivera (1888-1928) - COLÔMBIA 
Tradução: Reinaldo Guarany 
Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982, 237 páginas




História de paixão e brutalidade, narra a descida ao inferno do poeta Arturo Covas - o protagonista transforma-se de aspirante a intelectual urbano em cruel evadido, contaminado pela paisagem, primeiro dos planaltos inóspitos e mais tarde da selva indomável. Arturo rapta Alícia em Bogotá e, sem condições de enfrentar a família dela, partem ambos para o interior da Colômbia, buscando ganhar tempo até que os ânimos se apaziguem. Mas à medida em que deixam as franjas da "civilização" as coisas fogem ao controle. Arturo se desinteressa por Alícia e essa escapa com bandidos para a floresta, em plena febre da extração da borracha. Então, corroído pelos sentimentos de traição e despeito, Arturo vai atrás da amada, embrenhando-se mais e mais no "coração da treva" metafórica e concreta. O Autor demonstra força descritiva, mas o livro às vezes se perde em exotismos, em linguagem parnasiana, em interpolações explicativas de usos e costumes. Há mesmo, no meu entendimento, um erro de composição - um romance naturalista, tradicionalíssimo em seu formato, intercala, entre meados da segunda parte e início da terceira, uma longa história paralela, da tragédia de Clemente Silva, que distrai e enfraquece o enredo principal. O ponto alto do livro é a pintura de uma natureza que nada tem de idealizada, é o relato da escravidão imposta aos homens brancos por outros homens brancos e o total desprezo que todos demonstram pelos indígenas e pelas mulheres, vistos como subumanos ou não-humanos. É interessante observar que o Brasil e os brasileiros aparecem em diversas passagens do romance, principalmente na terceira e última parte.



(Setembro, 2017)




Avaliação: BOM

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Mulheres sós (1949)
Cesare Pavese (1908-1950) - ITÁLIA  
Tradução: Julia Marchetti Polinesio 
São Paulo: Brasiliense, 1988, 127 páginas




O Autor assume uma voz feminina, a da costureira da alta moda, Clelia Oitana, para expor os impasses e desafios da nova mulher que surgia no pós-guerra. Clelia nasceu em Turim e, "começando do nada, saindo de um pátio que parecia um buraco" (p. 15), conseguiu tornar-se uma profissional respeitada em Roma. Agora, quinze anos mais tarde, volta à cidade-natal para instalar um filial da loja da qual é gerente, e vai conviver com a elite turinesa. Independente, financeira e afetivamente, ela acompanha com olhos críticos a vida vazia de aristocratas e burgueses, consumida em festas, passeios, confusões, tudo regado a muita bebida e conversa fútil, pessoas essas que, descobre aos poucos, "viviam como gatos, sempre prontos a se atacar" (p. 40). Neste meio destacam-se as "mulheres sós", que tentam se impor rompendo com o padrão esperado de casamento e filhos: Momina, a baronesa; a loura Mariella; Nene, a escultora; e a sensível e deslocada Rosetta Mola. A grande questão é como sobreviver mergulhadas em mundo machista e sem perspectivas. Clelia, mais velha, se pergunta "se valia a pena lutar tanto para chegar onde estava e não ser mais nada" e conclui: "eu me consolava pensando que minha vida não valia pelas coisas que tinha obtido ou pela posição que tinha alcançado, mas pelo fato de tê-las obtido e alcançado" (p. 80). Cada uma dessas "mulheres sós" abdicou de algo, mas a decisão radical tomou-a Rosetta Mola, que após uma tentativa frustrada, finalmente consegue se matar tomando veneno, porque "queria apenas ficar sozinha e fugir do barulho, e no seu ambiente não [era] possível se isolar" (p. 84). Narrativa desoladora de personagens que sentem "nojo de viver, nojo de tudo e de todos, do tempo que corre tanto, mas que nunca passa" (p. 61).




(Setembro, 2017)




Avaliação: MUITO BOM


Curiosidade:

É estranho que o Autor apresente uma personagem secundária, a escultora Nene, duas vezes, com descrições quase idênticas, mas com uma enorme diferença de idade:
à pág. 32 ela, "jovem e magra", "era uma estranha moça, de lábios grossos, que devia ter uns vinte e cinco anos. Tinha um sorriso bonito, de criança, mas seu jeito elétrico era desagradável".
à pág. 87 ela ressurge com "lábios grossos e franjinha, com seu modo atrevido de rir como uma criança. No entanto, devia ter trinta anos (...) Que moça estranha; parecia um pequeno réptil." 


Entre aspas:

"O homem é o único animal que melhora vestido". (pág. 13)

"Não se pode amar alguém mais do que a si mesmo. Ninguém consegue salvar quem não se salva sozinho". (pág. 22)

"Uma mulher que vale mais do que o homem que a toca, é uma infeliz". (pág. 37)


segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Velha França (1933)
Roger Martin Du Gard (1881-1958) - FRANÇA 
Tradução: Alexandre Cabral 
Rio de Janeiro: Portugália Brasil, s/d, 84 páginas




A narrativa acompanha um dia na vida do carteiro Paul Joigneau que, junto com seus dois cachorros, Pic e Mirabole, percorre as poucas ruas da aldeia de Maupeyrou. Estamos no Entre Guerras e o interior da França vive um momento de paz, apesar das dificuldades econômicas. Joigneau  serve de ligação entre os mais diversos habitantes, de quem conhece a vida pública e também os segredos, já que não hesita em bisbilhotar a correspondência, antes de distribuí-la. Em um texto evocativo, ficamos, em poucas páginas, íntimos de inúmeros personagens: o idealista professor Ennberg e sua irmã; os esquerdistas que se congregam no Café Tabac, dos Bosse; os direitistas reunidos em torno do senhor Ferdinand, cabeleireiro-perfumista; a senhora Loutre, mulher do hortelão, que acreditando que o marido havia morrido na guerra, colocou para dentro de casa um "fritz" (alemão), prisioneiro de guerra, e agora vive em perfeita harmonia com os dois; o velho casal de refugiados belgas, à espera da morte; os três pensionistas de guerra, Pascalon, Tulle e Hostin; as três viúvas da guerra, senhoras Sicagne, Gueudet e Touche; os Pâqueux, irmão e irmã, acusados de manter o pai preso em condições subumanas; o presidente da Câmara, Arnaldon, e sua filha solteirona; o decadente aristocrata Des Navières; o angustiado padre Verne... Uma galeria impressionante de personagens, "uma raça desconfiada, invejosa, calculista, que a cupidez destrói como se fosse um cancro" (p. 26). Apesar desse julgamento terrível, o narrador  devota a todos um olhar de compreensão, pois sabe, como o padre Verne, que "vivem como se eles próprios fossem eternos, sem entrever o abismo que os espera ao cabo da caminhada, nem como esta caminhada para o abismo será breve" (p. 80).


(Setembro, 2017)



Avaliação: BOM

Entre aspas:

"Há pensamentos que é preciso afastar sistematicamente, se se procura conservar intacta a coragem". (pág. 83)

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

O mistério Frontenac (1933)
François Mauriac (1885-1970) - FRANÇA 
Tradução: Eunice Gruman 
Rio de Janeiro: Globo, 1988, 160 páginas





Narrativa delicada e melancólica sobre a passagem do tempo e a destinação que damos à nossa vida. Estamos na primeira década do século XX, na região de Bordeaux. Os Frontenac são donos de uma madeireira e de vastas terras. Michel morreu deixando a viúva, Blanche, da aristocrática família Arnaud-Miquieu, com cinco filhos pequenos: Jean-Louis, Yves, José, Marie e Danièle. Xavier, que mantinha uma relação de profunda admiração pelo irmão, praticamente renuncia à vida e à herança para garantir um futuro mais tranquilo aos sobrinhos. Acompanhamos então o crescimento das crianças: o bondoso e generoso Jean-Louis obrigado a abrir mão de suas pretensões de se tornar professor de filosofia para assumir os negócios da família; o sonhador Yves radicando-se em Paris em nome de uma carreira de escritor e que acaba imerso na futilidade da capital; o arrivista José indo cumprir o serviço militar no Marrocos para afastar-se da vida dissoluta que levava; e Marie e Danièle cumprindo o papel reservado às mulheres da província, na época, de se casarem e tornarem-se mães. Conhecemos os personagens, intensamente humanos em sua complexidade, por meio de rápidas e precisas pinceladas: o pragmatismo de Blanche; o moralismo doentio de Xavier, que esconde a mulher por não serem casados; as tentativas fracassadas de Jean-Louis de implantar melhorias para os trabalhadores na firma em que os Frontenac são sócios; os amores devassos de Yves; as dívidas contraídas por José. E vêm as mortes... o câncer de Blanche, a angina de Xavier... mais tarde, já fora do tempo da narrativa, José caído num campo de batalha, em 1915... E a certeza de que somente a crença na imortalidade da alma pode provocar alguma paz: "toda a família obteria a graça de unir-se por um único abraço, de confundir-se para sempre na terra adorada, no nada" (p. 159).



(Setembro, 2017)



Avaliação: BOM

Entre aspas:

"A morte não nos entrega somente aos vermes, mas também aos homens; eles roem as lembranças e as decompõem (...)" (pág. 123)

domingo, 3 de setembro de 2017

Um dia na vida de
Ivan Deníssovitch (1962)
Aleksandr Soljenítsin (1918-2008) - RÚSSIA
Tradução: António Pescada
Porto: Sextante, 2017, 175 páginas



Não se trata propriamente de uma narrativa de ficção, mas de uma espécie de documento com utilização de técnicas de romance. Aliás, o próprio Autor, em nota posterior à edição francesa de 1973, confessa que as personagens são reais, "recolhidas da vida no campo [num gulag], e as suas biografias são autênticas". E o livro é exatamente o que promete o título: um dia na vida do prisioneiro Ivan Deníssovitch Chúkov no campo de concentração de Ekibastuz, nas estepes geladas do que hoje é o Cazaquistão, naquela época parte da extinta União Soviética. O ano é 1951 e estamos em pleno inverno - a temperatura, naquele dia, não passa dos 17 graus negativos e com a chegada da noite cairia para até 40 graus negativos. O camponês Chúkov tem 40 anos, oito dos quais vividos encarcerado, primeiro no campo de concentração de Ust-Ijmá e agora em Ekibastuz. Como a maioria dos companheiros de prisão está magro, quase sem dentes (perdidos para o escorbuto), e toda a sua energia se volta para sobreviver a mais um dia de trabalhos forçados. Descrevendo a vida de S-854 (os prisioneiros não têm nome, mas números), o narrador expõe a corrupção dos oficiais encarregados do campo, a permanência de uma hierarquia social entre os reclusos, a arbitrariedade das ações, a tortura do enclausuramento na solitária, onde o prisioneiro, na melhor das hipóteses, saía tuberculoso, devido ao frio, à umidade e à má alimentação (p. 160). Chúkov foi preso em 1941, em plena guerra, acusado de "cumprir uma missão de espionagem alemã" (p. 68), mas nem ele nem os seus julgadores conseguiram definir o que significava essa sua "traição à pátria". Assim, após ser espancado, Chúkov calculou: "se não assinasse [a confissão], ganhava um sobretudo de madeira; se assinasse, ao menos ainda viveria um pouco" (p. 68-69). O narrador mostra o processo de dessubjetivização dos prisioneiros, cujo pensamento se resume a: "falta pouco para a alvorada? Quanto falta para a formatura? E para o almoço? E para o recolher?" (p. 163). Importante como peça acusatória contra a ditadura estalinista soviética (extensiva aos regimes totalitários de maneira geral), o livro no entanto é modesto do ponto de vista literário.



(Setembro, 2017)



Avaliação: BOM


quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Por dois mil anos (1934)
Mihail Sebastian (1907-1945) - ROMÊNIA
Tradução: Eugenia Flavian
Barueri: Amarilys, 2017, 350 páginas



Um romance premonitório. Um jovem judeu observa, por meio de anotações em um diário, a lenta mas tenaz evolução do anti-semitismo na Romênia dos anos 1920 e 1930, que iria redundar, na década seguinte, na "solução final" nazista, o Holocausto. Dividido em cinco partes, que cobrem cinco períodos distintos, o protagonista, cujo bisavô já "falava e escrevia romeno" (p. 81), não acredita, inicialmente, que as manifestações agressivas de sua época de estudante poderiam se transformar no ódio verificado no começo da 1930, quando finda o relato. A primeira e segunda partes - os chamados "caderno azul" e "caderno verde" - cobrem os anos de 1922 e 1923, período de ebulição do anti-semitismo, que o protagonista vive na pele como aspirante à universidade em Bucareste. É nesse altura que toma contato com o professor Ghitã Blindaru, defensor de valores protofascistas, que exercerá sobre ele um enorme fascínio, a ponto de convencê-lo a mudar o interesse do curso de direito pelo de arquitetura. É também um momento de intenso debate no meio judaico, entre assimilacionistas, sionistas e marxistas. A terceira parte decorre cinco anos depois, em 1928, em Uioara, no distrito de Prahova, a uma hora da capital, onde o protagonista trabalha, como arquiteto, na construção da refinaria Estrela Romena, de propriedade do capitalista norte-americano Ralph Rice. É um instante de aparente calmaria, no qual o narrador pode suspirar por um amor platônico pela inglesa Marjorie Dunton, pode discutir política com seu amigo Marin Dontru e com seu superior imediato, Mircea Vieru, e também pode acompanhar a disputa entre Vieru e Blindaru, representantes do "novo" (o capital estrangeiro, o progresso e a indústria) e do "velho" (o nacionalismo, a terra e a tradição), respectivamente. A quarta parte acompanha a espera do protagonista pela instalação de um escritório da Expansão Rice em Paris, em 1931, quando na Romênia começa a perseguição aos comunistas. A quinta e última parte se passa em Bucareste, em 1933. O narrador sente, claramente, o acirramento do anti-semitismo, que transparece até mesmo em pessoas insuspeitas, como Dontru e Vieru. Enquanto isso, o protagonista constrói a casa de Blindaru, em Snagov, uma vila próxima a Bucareste. Esta casa, aliás, serve de metáfora para o livro todo: o arquiteto judeu idealiza e planeja um espaço no qual se reconhece, mas onde não tem lugar. A antecipação do Autor sobre a tragédia iminente é impressionante: "(...) o anti-semitismo de 1933 é econômico e de 1333 era religioso. Mas isso acontecia porque a essência daquele século era a religião, ao passo que a de hoje é a economia. Se amanhã a estrutura social vier a se centrar não na religião, nem na política e nem na economia, mas digamos, na apicultura, o judeu será detestado do ponto de vista dos criadores de abelhas" (p. 330). A lição que fica é um fabuloso libelo contra a intolerância de todos os tempos: "Ano após ano esse grito [de morte] passa pelos ouvidos das pessoas trabalhadoras, indiferentes, apressadas, preocupadas com outras coisas, ano após ano esse grito flutua (...) e ninguém o escuta. Um  belo dia (...) eis que brota dos esconderijos, debaixo de todas as pedras. (...) É preciso para isso um tempo de cansaço, de nervosismo, um tempo de espera extenuada, um tempo de desesperança. Aí então, ouvem-se as vozes que não se ouviam" (p. 315). Para consolidar sua posição na sociedade, hoje como ontem, os fascistas contam sempre com a conivência de "(...) uma geração de pessoas fartas de sempre serem inteligentes" (p. 341).


(Agosto, 2017)



Avaliação: BOM


Entre aspas:

"(...) somos incapazes de viver um momento de vida até o fim. (...) permanecemos continuamente ao lado do que está acontecendo, um pouco acima, um pouco abaixo das coisas, mas nunca no meio delas". (pág. 46)

"Um livro ou nos derruba ou nos ergue". (pág. 124)

"A negligência é o humor da elegância". (pág. 165)

(...) não é possível estar desesperado e dar conferências sobre o desespero (...), estar angustiado e discursar sobre a angústia. (...) essas coisas, se forem verdadeiras, são dramas e os dramas se vivem, não se discutem". (pág, 213)

"A segurança não é um bom ambiente para o pensamento" (pág. 263)














quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Origem (1975-1982) 
Thomas Bernhard (1931-1989) - ÁUSTRIA    
São Paulo: Companhia das Letras, 2006, 501 páginas
Tradução: Sergio Tellaroli   






Esta autobiografia reúne cinco narrativas publicadas de forma independente em diferentes épocas e cobre onze anos da vida do Autor, entre os oito e os dezenove, vividos em Salzburgo e imediações. Com um texto compacto e reiterativo, bastante original, o narrador conta as agruras de crescer durante a Segunda Guerra Mundial e no momento imediatamente posterior ao fim dos conflitos. "Uma criança", lançado em 1982, cobre um vasto período em que os adultos estavam nas frentes de batalha e em Salzburgo restavam apenas as mulheres, os velhos e as crianças. Aqui, ficamos conhecendo os familiares do Autor - a mãe, abandonada pelo marido; o tutor, homem com quem ela se casa e tem outros dois filhos; a avó, simpática e dedicada; e o avô, a quem adora, filho de burgueses, que abre mão da herança por razões filosóficas. Este avô, socialista, escritor (chegou a ganhar um prêmio nacional) e leitor contumaz é o grande personagem do livro. A segunda parte, "A causa", lançada em 1975, centra-se em sua formação escolar, sob o autoritarismo nazista, uma "máquina devastadora de espíritos e personalidades" (p. 183), e divide-se em dois textos, intitulados Grünkrantz e Padre Franz. O Autor traça o perfil desses dois educadores, de personalidades diferentes, mas ambas aniquiladoras. "O porão", publicado em 1976, é o relato de sua aprendizagem, trabalhando em um armazém em Scherzhauserfeld, bairro operário da periferia de Salzburgo. "A respiração" cobre o período de internação, aos 18 anos, em estado bastante crítico (chega mesmo receber a extrema-unção) em um hospital em Salzburgo - onde também estava seu avô, que acaba morrendo ali por conta de um erro médico -, e depois em Grossgmain, um antigo hotel transformado em sanatório para doentes do pulmão. Após ter tido alta, o Autor acaba descobrindo que contraíra tuberculose, por ficar exposto à doença em Grossgmain, e é transferido para Grafenhof, onde permanece por nove meses, tema de "O frio", publicado em 1981. Sem a mãe, morta por um câncer no útero, aos 46 anos, e o avô, ele tem que, aos 19 anos, enfrentar sozinho o mundo. Traumatizado por nunca ter conhecido o pai (morto em 1943, por um tiro), por uma educação rígida e por uma longa convivência em hospitais, o Autor se propõe a descrever "fatos e acontecimentos (...) munido do propósito da verdade e da clareza" (p. 323). Por vezes, o Autor peca pelo tom assertivo - pululam frases que investem contra o leitor, quem dele discorda, afirma, "são idiotas ou charlatães" (p. 310) -; outras vezes mostra uma uma visão bastante romântica do ofício do escritor: "O artista, e sobretudo o escritor (...) deveria ser obrigado a procurar um hospital de tempos em tempos (...) ou uma cadeia ou um monastério. (...) o artista, e em particular o escritor, que não procurava (...) uma tal esfera propícia ao pensamento, vital, decisiva e necessária à sua existência, acabava se perdendo na insignificância, enredado na superficialidade" (p. 354). 


(Agosto, 2017)

Avaliação: BOM  




Observação:

O Brasil aparece à página 275: "Envolvia-me sem qualquer relutância com o arroz, a semolina, o chamado chá russo ou o café brasileiro (...)" 

Entre aspas:

"Quando estamos no ápice, não há nada que desejemos mais do que um observador a nos admirar (...)" (pág. 15)

"(...) estamos cercados de vulgaridade e inevitavelmente sufocamos todos os dias em burrice." (pág. 43)

"(...) os esportes divertem, embriagam e emburrecem as massas, acima de tudo as ditaduras sabem bem por que, a qualquer tempo e sob quaisquer circunstâncias, favorecer os esportes. Quem é a favor dos esportes tem a massa a seu lado, quem é a favor da cultura as tem contra si (...) razão pela qual todos os governos sempre são pelos esportes e contra a cultura." (pág. 162)


"(...) o sábado é um dia temido, ainda mais temido que o domingo, porque no sábado todos sabem que o domingo está para chegar, e o domingo é mais terrível dos dias." (pág. 269)






domingo, 13 de agosto de 2017

O quarto enorme (1924)
e. e. cummings (1894-1962) - EUA  
Porto: Livros do Brasil, 2017, 331 páginas
Tradução: José Lima 



Trata-se de uma espécie de autobiografia ficcional, se é que isso é possível. O Autor descreve o período em que permaneceu preso, por suspeita de traição, entre fins de agosto e meados de dezembro de 1917, em plena Primeira Guerra Mundial. Ele havia se engajado como motorista voluntário da Cruz Vermelha americana e, após três meses na frente de guerra, na França, é encarcerado, porque seu amigo inseparável, B., em uma de suas cartas, interceptada pela censura do governo francês, fez comentários desairosos sobre os rumos do conflito. Ambos são então levados para o centro de triagem de La Ferté-Macé, na Normandia, e lá, em um cômodo de "forma oblonga,de uns vinte e cinco metros por doze", com um "teto abobadado a oito ou nove metros do chão" (p. 85) - o "quarto enorme" - , onde se amontoavam entre "sessenta e setenta paillasses" (p. 216), convivem com impressionantes tipos das mais diversas nacionalidades. Na prisão, em condições subumanas - um  lugar que "é o mesmo que (...) estar morto" (p. 90) - estão homens e mulheres, em geral prostitutas, separados por um muro, além de algumas poucas outras, prisioneiras voluntárias junto com seus filhos para permanecerem próximas a seus maridos. Deitados em colchões apoiados diretamente no chão - o narrador e seu amigo, mais afortunados, dormem em camas de campanha - o Autor descreve, com profunda ironia, a opressão do pequeno poder, assentado na tortura, na discriminação, na arbitrariedade. Ótimo caricaturista, traça o perfil dos colegas, sem nomes próprios, designados apenas por suas características singulares: o falso Conde Bragard, Apolion, O Andarilho, Zulu, Surplice, Jean Le Nègre, etc. O Autor, americano, fluente em francês, filho de pessoas influentes, ex-estudante de Harvard,  encara esse período "entusiasmado e orgulhoso", por ser tratado como "um fora da lei" (p. 28). Os horrores da guerra aparecem apenas ocasionalmente, como na seguinte passagem: "Tinha (...) assistido à construção levada a cabo pelos aliados de uma ponte improvisada sobre o rio Yser,com os cadáveres tanto de fiéis como de inimigos atirados para ali à toa para formarem a base necessária para o madeiramento" (p. 195). A se destacar a forma da narrativa: o Autor inventa uma gramática própria, com o uso de uma sintaxe e uma pontuação próprias, que tenta muitas vezes, ao subverter a forma, denunciar o conteúdo, encharcando sua prosa da mais alta poesia (gênero, aliás, em que é mais conhecido).


(Agosto, 2017)


Avaliação:  BOM 




Entre aspas:

"(...) [há] certo tipo de seres humanos,que quanto mais cruéis são os sofrimentos que lhes são infligidos mais cruéis se tornam para com os que têm a infelicidade de serem mais fracos ou mais miseráveis do que eles" .(pág. 266)


quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Ifigênia (1928)
Teresa de la Parra (1895-1936)  VENEZUELA 
São Paulo: Carambaia, 2016, 541 páginas
Tradução: Tamara Sender    


Egocêntrica e voluntariosa, María Eugenia, protagonista-narradora deste romance, pertence à alta aristocracia venezuelana - o avô materno havia sido "poeta, historiador, ministro e acadêmico" (p. 79), enquanto o avô paterno, após enviuvar,
 "acometido por delírio de grandeza", instala-se em Paris com os dois filhos pequenos e entrega-se a "uma vida luxuosa e devassa" (p. 84). Órfã de pai e mãe, María Eugenia volta a Caracas após 12 anos morando na França e vai viver com a avó, Eugenia, e a tia solteirona, Clara. Ali, descobre que não tem mais nada - o único bem que restava, a fazenda San Nicolás, teria sido, segundo seu tio paterno, Pancho, roubada por seu tio materno, Eduardo. Em Caracas, a protagonista entra em conflito com os valores de uma sociedade machista e preconceituosa, que vive das aparências. Dividido em quatro partes, o romance se inicia com uma longa carta de María Eugenia a uma amiga de colégio, Cristina de Iturbe. Nela, a narradora expõe a surpresa que provoca em seus familiares por suas ideias liberais - ela gosta de ler, tem opiniões próprias, conversa de igual para igual com os homens e adora se vestir à moda parisiense, muito escandalosa para os padrões locais. Na segunda parte, quando o livro toma a forma de um diário, Maria Eugenia relata seu encontro com Mercedes Galindo, uma mulher de "indiscutível beleza", elegante e cordial, mas casada com um "marido libertino e viciado em jogo" (p. 143), que chega às vezes a lhe bater. Mercedes, que comporta-se como se estivesse em Paris, "adota" María Eugenia, que nutre por ela um verdadeiro fascínio. Na casa de Mercedes, ela conhece e se apaixona por Gabriel de Olmedo. A família de Maria Eugenia, preocupada com a "má influência" de Mercedes, isola-a na fazenda San Nicolás, onde ela recebe a notícia do casamento de Gabriel com María Monasterios e da ida de Mercedes para Paris, acompanhando o marido, nomeado cônsul em Bordeaux. Na terceira parte, dois anos depois, María Eugenia retoma a narrativa, tendo capitulado às normas sociais: "perdi completamente aquela forma de pensar anárquica, desorientada e caótica, que como dizia vovó com tanta razão, representava uma ameaça e um perigo terrível para meu futuro" (p. 319). Ela então confessa que suavizou a tonalidade do batom, agora senta-se de forma adequada, não cantarola canções burlescas, evita falar palavrões e esquiva-se de romances inapropriados - mas, mais que tudo, aceita ser encaminhada para um casamento com Cesar Leal, que, conforme a avó, descende de uma família de "segunda categoria" (p. 337), mas que parece "educado, correto, inteligente, extremamente culto, não tem nenhum vício", sendo Doutor em Leis, Senador da República, Diretor de um Ministério, com ótima situação financeira (p. 336). Na última parte, quando o livro quase descamba em alguns momentos para o romantismo mais descabelado, María Eugenia encontra Gabriel, no leito de morte do tio Pancho. A paixão antiga então se reacende e Gabriel, separado da mulher, mas não divorciado, não se conforma que eles, para atender às convenções sociais, abram mão de sua felicidade. Gabriel admite que casou-se por interesse, para aplacar uma "ambição insaciável de chegar... a ser algo!" Com a influência do sogro, lançou-se em especulações acertadas e ficou rico, "tão rico, e até mais rico do que eu almejava ser" (p. 420). Gabriel tenta convencer María Eugenia a fugir com ele para a Europa. Após titubear, ela chega a arrumar a mala, mas desiste na última hora, concluindo, porém, que também não se casará com Cesar Leal, por quem, além de desprezo intelectual, nutre imensa ojeriza. Mas, enfim, lembrando-se da tia Clara, solteira e amarrada pelo resto da vida à solidão e à nulidade, acaba acatando o compromisso firmado. Este é um romance desolador sobre a desconstrução de uma rebeldia. Se, no começo, María Eugenia, vaidosíssima - "bonita como, sou" (p. 15), orgulhosa de seus "cachos louros, lábios rosados e pai rico" (p. 280) - e bastante consciente, com profunda ironia, de ser uma mercadoria à venda (p. 326), percebe, no final, que, como seu vestido de noiva, "vaporoso e vazio", é o "cadáver de uma alma": "um desses cadáveres que são enterrados nos sacrifícios sem sangue em que não se mata o corpo" (p. 528). "Como é horrível ser mulher!" (p. 119), eis o grito que lança contra a sociedade venezuelana (latino-americana) machista e misógina. É interessante observar como María Eugenia, avançada em sua percepção da opressão da mulher, é, em contradição, agarrada aos valores do meio a que pertence: racista, classista e reacionária politicamente*.


 * Uma das obsessões correntes ao longo do livro é a necessidade de os personagens provarem que são brancos. Por exemplo, para atacar a mulher de Eduardo, Pancho afirma que averiguou a genealogia de María Antonia e descobriu sua "origem muito obscura", "acidentada e tortuosa" (p. 150). Assim, quando María Eugenia vai insultá-la, qualifica-a de "arrivista", ou "chamando as coisas por seu nome, é uma mulata, fruto de pais naturais, carregada de maldade e ódios raciais" (p. 172). Em outro momento, María Eugenia demonstra uma descabida alegria ao perceber que, ao contrário do que pensava, Gabriel, seu amado, não era moreno, e sim "branco, branco, branquíssimo" (p. 407). Noutra ocasião, Mercedes Galindo se ofende quando Pancho, segundo ela, tenta "enegrecer" sua origem, e reafirma que se considera "branquíssima de quatro costados", no que Pancho rebate, dizendo que a genealogia de Mercedes é o que há "de mais falso e mais convencional" (p. 211). Para além dos preconceitos raciais, a concepção classista de María Eugenia é de puro esnobismo e alienação. Ela sonha com "a época feliz da Colônia", "quando nossas bisavós e tataravós atravessavam as ruas de paralelepípedos de Caracas em cadeiras de mão, levadas por dois escravos que eram sempre fiéis, retintos e robustos, porque ainda não haviam sido contaminados com os vícios e as ambições da raça branca" (p. 50) e gosta de passear pela cidade "para ver o sofrimento pitoresco da miséria" (p. 104). Em dado momento, após irritar-se com as ideias do tio Pancho,  que, segundo ela, "cheiram a socialismo", declara: "Não sou apegada a dinheiro, mas a democracia, a boemia e a sainte pauvreté me causam repugnância" (p. 218).


(Agosto, 2017)


Avaliação:  MUITO BOM 




Entre aspas:

"Como é triste chegar a qualquer lugar para sempre! (...) é por isso (...) que a morte nos assusta (...)" (pág. 22)

"Experimentamos (...) uma sagrada resignação perante as dores futuras e sentimos também na alma esse melancólico florescer das alegrias passadas, muito mais tristes que as tristezas, porque em nossa memória são como cadáveres de corpo presente que nunca nos decidimos a enterrar". (pág. 34)

"(...) nossas convicções são feitas mais para serem aplicadas à conduta dos demais do que à nossa própria, porque é então que aparecem com todo o esplendor de sua honradez: sólidas, arraigadas e inquebrantáveis. Ao contrário, quando se trata de nós mesmos, (...) nossas opiniões ou convicções ganham no mesmo instante a flexibilidade da cera e se acomodam e se modelam maravilhosamente sobre os caprichosos incidentes de nossa conduta" (´pág. 133)

"O inconformismo surge das comparações". (pág. 189)

"(...) todos os homens, quando se sentem seguros, ficam intoleráveis, porque eles (...) só se apegam ao que é muito duvidoso e muito difícil, e ao que pode lhes escapar entre as mãos!" (pág. 429)


Observações:

1) O título do livro evoca a tragédia homônima composta por Eurípides (ca. 480 a.C. - 406 a.C.), citada expressamente à pág. 529: "Como na tragédia antiga, sou Ifigênia; estamos navegando em plenos ventos contrários, e para salvar este barco do mundo que, tripulado por sabe-se lá quem, corre a saciar seus ódios sabe-se lá onde, é necessário que entregue em holocausto meu corpo de escrava marcado com os ferros de muitos séculos de servidão".

2)
 O Brasil aparece à pág. 224: "Eles falavam das flutuações do café, de sua influência sobre a situação econômica do país, de possíveis evoluções combinadas com as colheitas do Brasil (...)".



quinta-feira, 27 de julho de 2017

O bebedor de vinho de palmeira (1952)
Amos Tutuola (1920-1997) NIGÉRIA
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, s/d, 142 páginas
Tradução:  Eliane Fontenelle    





Escrito em inglês, esse romance mescla o non sense de "Alice no País das Maravilhas" com procedimentos da literatura fantástica, resultando em uma originalíssima fábula africana, assentada na recriação ousada da oralidade. O protagonista, primogênito de oito filhos de um homem de posses, desde os dez anos era viciado em vinho de palmeira. Por isso, seu pai lhe presenteou com uma fazenda que possuía 560 mil palmeiras e um vinhateiro que lhe preparava 225 barris da bebida cotidianamente (p. 8). Um dia, o vinhateiro, de nome Baity (p. 107), morre, e, desolado, pois só ele sabia preparar a bebida a seu gosto, o protagonista resolve trazê-lo de volta da Cidade dos Mortos. Para isso, empreende uma longa viagem, recheada de aventuras, as mais estranhas possíveis, como o encontro com o "Crânio", um esqueleto que alugava partes do corpo para se tornar um homem bonito e elegante, das mãos de quem aliás resgata a filha de um chefe tribal, com quem se casa. Juntos, o casal empreende a difícil missão de encontrar Baity, tendo ainda a ajuda dos "jujus" do protagonista, que a tradução não indica em momento algum do que se trata, mas parece ser uma mistura de amuleto mágico e varinha de condão. Após enfrentar as mais perversas e malévolas criaturas - vivas e mortas, corpos e espíritos, e algumas que não são nem uma coisa nem outra -, o casal localiza o vinhateiro na Cidade dos Mortos e ganha dele um ovo mágico, que será muito útil posteriormente. Eles voltam à aldeia natal do protagonista, e, depois de novas peripécias, vivem felizes. É interessante notar a ausência de apreciação moral na narrativa: para alcançar seus objetivos, o protagonista não hesita em matar e roubar - assim como as criaturas que o circundam, como por exemplo, o Céu, que, por uma causa de uma questiúncula com a Terra - a posse de um minúsculo rato - para de chover, arrasa as plantações, provoca fome e enorme mortandade. É também curioso o humor do narrador. Na cidade das "pessoas confusas", ele é nomeado juiz, a quem são submetidas duas causas (p. 126 a 130). Como ele não consegue chegar a uma conclusão, pede: "(...) eu ficaria muito agradecido se alguém que lesse esse livro julgasse um ou ambos os casos e mandasse a sua decisão para mim o mais rápido possível, porque os habitantes da 'cidade confusa' querem que eu vá urgentemente para lá com uma solução" (p. 131). Diferente e inusitado, trágico e divertido - uma experiência prazerosa de leitura!      

(Julho, 2017)


Avaliação:  MUITO BOM 





Observação:

 
Além de terminar a leitura sem saber o que afinal são os tais "jujus" que o protagonista usa para se safar dos perigos, é irritante - mas infelizmente não se trata de uma características apenas deste livro - a não tradução de medidas para o sistema métrico (para mim, algo incompreensível). Alguns exemplos:

(...) cresceu até a altura de 3 polegadas" (p. 34)
Media um quarto de milha de altura e seis pés de diâmetro (p. 46)
(...) um grande guarda-chuva cor de creme, medindo 3 pés de altura (p. 48)
Tinham cerca de dois pés de comprimento (p. 59)







domingo, 23 de julho de 2017

A família Golovliov (1876)
Saltykov-Shchedrin (1826-1889) – RÚSSIA 
Lisboa: Relógio D'Água, 2010, 282 páginas
Tradução:  Manuel de Seabra    



Este magnífico (e trágico) romance descreve a história dos Golovliov, ricos proprietários de terra, vivendo a 700 quilômetros de Petersburgo, logo após a decretação do fim da servidão na Rússia, ou seja, 1861. O Autor erige dois dos mais execráveis personagens da literatura ocidental, a cruel Arina Petrovna, e seu filho, o hipócrita Porfírio Vladímiritch, conhecido, entre a própria família, como Iúduchka, "o pequeno Judas" (p. 25). Arina "dirigia autocraticamente" a vasta propriedade de Golovliovo, "com economia. quase com avareza" (p. 19), governando cerca de "quatro mil almas" (p. 48). Casada com o inútil Vladímir Mikháilitich, um bêbado, cuja atividade limitava-se "a agarrar-se às criadas bonitotas no corredor" (p. 20), Arina passou a vida a ampliar seus domínios, comendo mal, dormindo mal e ignorando os quatro filhos. Ánnuchka casou contra a vontade da mãe e, após ser abandonada pelo marido, morreu, deixando as gêmeas Anninka e Liubinka, de dois anos, aos cuidados da avó. Stepán, depois de perder sua casa em Moscou, dada pela mãe como herança, volta para Golovliovo e, humilhado, é obrigado a viver de restos. Passa, então, a beber e enlouquece, assim como seu pai. Com a morte destes, Porfírio assume Golovliovo, logo se desentende com a mãe e expulsa-a para Dubróvino, parte dos domínios da família, herdada pelo outro irmão, Pável. Este também irá se consumir na bebida, desprezado até mesmo pelos empregados. Porfírio, "litigioso, mentiroso" e pio (p. 115), assume também essa propriedade e passa a contar os dias para incorporar Pogarelka, onde a mãe vive com as gêmeas. Anninka e Liubinka tornam-se "atrizes de província" e abandonam suas terras. Nesse ínterim, Porfírio vê seus dois filhos morrerem - Volódenka se mata e Pétenka sucumbe no caminho para a Sibéria, para onde ia cumprir uma pena por roubo -, amasia-se com Ievpraxéiuchka, que engravida, e tem seu bebê enviado para a roda dos enjeitados em Moscou. Porfírio, que "amava a ideia de atormentar, arruinar, sugar as pessoas" (p. 232), passa os dias fechado em seu escritório em infindáveis contabilidades e inúmeras rezas, sob o lema: "Não sei de nada! Não proíbo nada, nem autorizo nada!" (p. 204). Após anos, Arina morre, uma das netas, Anninka, volta para Golovliovo, tuberculosa - a outra, Liubinka também se mata - e passa as noites a beber com o tio Porfírio, insultando-se mutuamente, até o dia em que ambos enlouquecem e morrem. Então, como um abutre, aparece a prima, filha de Varvara, irmã de Arina, para assumir tudo, e continuar a história de avareza e autodestruição dos Golovliov, pois, como afirma o narrador, "há famílias sobre as quais paira, como inevitavelmente, uma predestinação" (p. 268), no caso, a cobiça, o alcoolismo, a loucura. Estupenda narrativa sobre a usura, o egoísmo, a hipocrisia, o cinismo - enfim, uma crítica ferina, mordaz, devastadora sobre a classe dos proprietários russos, cuja vida de exploração da miséria, acumulação de dinheiro e ociosidade iria redundar nas revoltas políticas do começo do século XX. 

(Julho, 2017)


Avaliação:  OBRA-PRIMA 




Entre aspas:

"(...) todos os homens que não têm qualquer objectivo consciente na vida anseiam instintivamente pelo seu torrão natal". (pág. 131)

"Um homem tem de insensibilizar a vista, o ouvido, o gosto e o odor, tem de tornar-se totalmente insensível para que os miasmas da vulgaridade não o influenciem". (pág. 180)

"(...) quanto mais um homem estúpido é, mais obstinado se mostra em conseguir os seus fins". (pág. 254)


Observações:

 
1) É curioso que parece haver uma inversão na ordem de um dos trechos do livro. O Autor segue rigorosamente a cronologia, mas estranhamente narra no capítulo intitulado "A sobrinha" (pág. 149-190) fatos ocorridos antes do capítulo imediatamente anterior, "Toda a família" (pág. 107-148).

2) É interessante o parentesco entre Pável Vladímiritch Golovliov com Ilya Ilitch Oblomov, protagonista do romance "Oblomov" (1859), de outro russo, Ivan Gontcharóv (1812-1891).

segunda-feira, 17 de julho de 2017

O vinho da solidão (1935)
Irène Némirovsky (1903-1942) – FRANÇA
Lisboa: Relógio D'Água, 2013, 214 páginas
Tradução:  Júlia Ferreira e José Cláudio      


Embora nascida na Ucrânia, a Autora escreveu toda a sua obra em francês. Dividido em quatro partes bem definidas do ponto de vista do cenário, este romance acompanha a solitária vida de Helène Karol, entre os oito e dezoito anos de idade, em uma época conturbada da história da Humanidade. A primeira parte do livro passa-se em uma pequena cidade industrial da Ucrânia, onde o pai de Helène, Bóris Karol, um judeu de origem pobre, administra uma fábrica, enquanto a mãe, Bella Safronov, judia de família rica, mas empobrecida, mimada e egocêntrica, sonha com uma vida menos aborrecida. Às vésperas da Primeira Guerra Mundial, em uma Rússia tomada por revoltas populares, Helène é criada pela babá francesa, Mademoiselle Rose, longe do carinho dos pais - a mãe sempre lembra que não nascera para ser "uma burguesinha pacata, satisfeita, feliz entre o marido e a filha" (p. 12), enquanto o pai vive mergulhado no trabalho. Bóris acaba demitido, aceita empregar-se numa mina de ouro na Sibéria e passa a especular no mercado financeiro, tornando-se riquíssimo. A segunda parte passa-se em Petersburgo, nos primeiros anos da Grande Guerra. Bóris, cada vez mais ausente, aproveita-se do conflito para fazer "malabarismos com papéis" (p. 79) - ganha fortunas especulando na Bolsa de Valores e comprando móveis e jóias dos aristocratas falidos. Bella toma Max como amante, um rapaz quinze anos mais novo que ela, filho de uma amiga dos tempos da Ucrânia. Helène descobre a traição da mãe e revolta-se contra as negociatas do pai: "tudo nessa casa faz lembrar um covil de ladrões de segunda ordem" (p. 78). Mademoiselle Rose morre, deixando Helène ainda mais amarga e solitária. Na terceira parte, estoura a Revolução Bolchevique. Helène e a mãe e Max se juntam a vários outros membros da burguesia russa e fogem para a Finlândia, carregando o que podem em jóias e ouro. Lá aguardam o desfecho dos acontecimentos. A quarta parte se passa em Paris, para onde a família se muda em 1919, após a assinatura do tratado de paz. Bella, sempre acompanhada de Max, e Helène vivem um cotidiano luxuoso, frequentando os melhores lugares de Paris e da Côte d'Azur, com o dinheiro ganho em transações escusas por Bóris. Envelhecida, Bella acaba abandonada pelo amante; Bóris, que se tornara alcoólatra, entra em falência e pouco depois morre em decorrência da bebida. No dia do seu enterro, Helène resolve largar a casa - o que significa deixar a mãe que detesta - para recomeçar a vida do nada. Apesar do ódio e o do ressentimento - "não se perdoa uma infância destroçada" (p. 164) -, a perspectiva para Helène abre-se em "um céu azul que apareceu entre as colunas do Arc de Triomphe" (p. 214) iluminando-lhe o caminho. O livro descreve com realismo uma burguesia gananciosa, hipócrita e inescrupulosa - "a nossa sorte é haver guerra", afirma a certa altura um personagem (p. 79) -. traçando um excelente retrato das contradições pessoais e coletivas do começo do século XX, que redundariam na catástrofe da Segunda Gurra Mundial.
  

(Julho, 2017)



Avaliação:
  BOM 


Entre aspas:


"Todas os lares são parecidos. Nas famílias só há avidez, mentiras e incompreensão mútua". (pág. 93)


Observação:

 
O Brasil aparece citado em dois momentos no livro.
1) À página 195, quando Helène relembra um amante da mãe: "O seu servilismo e a sua loquacidade divertiam Karol, e Helène reconhecia as velhas palavras que lhe tinham embalado a infância e pareciam acompanhar toda a sua vida como o tema incompreensível e fugidio de uma melodia: minas de petróleo, minas de ouro no México, no Brasil, no Peru, minas de platina e de esmeraldas" etc
2) À página 206, quando Helêne lê para o pai a lista de ações de empresas que ele possuía. A primeira citada é: "Dezassete mil ações da Brazilian Match Corporation"...