segunda-feira, 17 de julho de 2017

O vinho da solidão (1935)
Irène Némirovsky (1903-1942) – FRANÇA
Lisboa: Relógio D'Água, 2013, 214 páginas
Tradução:  Júlia Ferreira e José Cláudio      


Embora nascida na Ucrânia, a Autora escreveu toda a sua obra em francês. Dividido em quatro partes bem definidas do ponto de vista do cenário, este romance acompanha a solitária vida de Helène Karol, entre os oito e dezoito anos de idade, em uma época conturbada da história da Humanidade. A primeira parte do livro passa-se em uma pequena cidade industrial da Ucrânia, onde o pai de Helène, Bóris Karol, um judeu de origem pobre, administra uma fábrica, enquanto a mãe, Bella Safronov, judia de família rica, mas empobrecida, mimada e egocêntrica, sonha com uma vida menos aborrecida. Às vésperas da Primeira Guerra Mundial, em uma Rússia tomada por revoltas populares, Helène é criada pela babá francesa, Mademoiselle Rose, longe do carinho dos pais - a mãe sempre lembra que não nascera para ser "uma burguesinha pacata, satisfeita, feliz entre o marido e a filha" (p. 12), enquanto o pai vive mergulhado no trabalho. Bóris acaba demitido, aceita empregar-se numa mina de ouro na Sibéria e passa a especular no mercado financeiro, tornando-se riquíssimo. A segunda parte passa-se em Petersburgo, nos primeiros anos da Grande Guerra. Bóris, cada vez mais ausente, aproveita-se do conflito para fazer "malabarismos com papéis" (p. 79) - ganha fortunas especulando na Bolsa de Valores e comprando móveis e jóias dos aristocratas falidos. Bella toma Max como amante, um rapaz quinze anos mais novo que ela, filho de uma amiga dos tempos da Ucrânia. Helène descobre a traição da mãe e revolta-se contra as negociatas do pai: "tudo nessa casa faz lembrar um covil de ladrões de segunda ordem" (p. 78). Mademoiselle Rose morre, deixando Helène ainda mais amarga e solitária. Na terceira parte, estoura a Revolução Bolchevique. Helène e a mãe e Max se juntam a vários outros membros da burguesia russa e fogem para a Finlândia, carregando o que podem em jóias e ouro. Lá aguardam o desfecho dos acontecimentos. A quarta parte se passa em Paris, para onde a família se muda em 1919, após a assinatura do tratado de paz. Bella, sempre acompanhada de Max, e Helène vivem um cotidiano luxuoso, frequentando os melhores lugares de Paris e da Côte d'Azur, com o dinheiro ganho em transações escusas por Bóris. Envelhecida, Bella acaba abandonada pelo amante; Bóris, que se tornara alcoólatra, entra em falência e pouco depois morre em decorrência da bebida. No dia do seu enterro, Helène resolve largar a casa - o que significa deixar a mãe que detesta - para recomeçar a vida do nada. Apesar do ódio e o do ressentimento - "não se perdoa uma infância destroçada" (p. 164) -, a perspectiva para Helène abre-se em "um céu azul que apareceu entre as colunas do Arc de Triomphe" (p. 214) iluminando-lhe o caminho. O livro descreve com realismo uma burguesia gananciosa, hipócrita e inescrupulosa - "a nossa sorte é haver guerra", afirma a certa altura um personagem (p. 79) -. traçando um excelente retrato das contradições pessoais e coletivas do começo do século XX, que redundariam na catástrofe da Segunda Gurra Mundial.
  

(Julho, 2017)



Avaliação:
  BOM 


Entre aspas:


"Todas os lares são parecidos. Nas famílias só há avidez, mentiras e incompreensão mútua". (pág. 93)


Observação:

 
O Brasil aparece citado em dois momentos no livro.
1) À página 195, quando Helène relembra um amante da mãe: "O seu servilismo e a sua loquacidade divertiam Karol, e Helène reconhecia as velhas palavras que lhe tinham embalado a infância e pareciam acompanhar toda a sua vida como o tema incompreensível e fugidio de uma melodia: minas de petróleo, minas de ouro no México, no Brasil, no Peru, minas de platina e de esmeraldas" etc
2) À página 206, quando Helêne lê para o pai a lista de ações de empresas que ele possuía. A primeira citada é: "Dezassete mil ações da Brazilian Match Corporation"...



sexta-feira, 14 de julho de 2017

O heresiarca e cia. (1910)
Guillaume Apollinaire (1880-1918) - FRANÇA 
Lisboa: Vega,  s/d,  135 páginas
Tradução:  José Carlos Rodrigues     





Reunião de 15 contos, em sua grande maioria fábulas que giram em torno da religião (judaísmo e catolicismo), ou melhor, dos absurdos que se cometem em nome dela. Curiosamente, as três melhores narrativas do livro não estão diretamente ligadas a esse tema e sim ao fantástico. "O desaparecimento de Honoré Subac" é a história de um sujeito, cujo nome dá título ao conto, que, embora possua o poder de se tornar invisível, passa a vida fugindo de um marido traído que busca eliminá-lo, até o dia do encontro fatal. "O marinheiro de Amsterdão" evoca os enredos ultra-românticos, com um clima do norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1849): um marinheiro holandês desce do navio em uma escala em Southampton, na Inglaterra. Ele traz um macaco no ombro e imediatamente é abordado por um homem que demonstra intenção de comprá-lo. O desconhecido arrasta o marinheiro para a periferia da cidade e quando entram em uma casa, sequestra-o e o obriga a matar uma mulher, que repete sem cessar "Harry, sou inocente", frase que um papagaio, encontrado na cena do crime no dia seguinte, arremeda mecanicamente. Ao lado do corpo da mulher, o cadáver do marinheiro: um crime sem solução. Finalmente, "O ancião falso-messias, ou histórias e aventuras do Barão d"Ormesan" relata, entre outras peripécias do protagonista, seu aparecimento, como um novo messias, em várias partes do mundo, ao mesmo tempo, resultado de uma máquina de sua invenção.  



(Julho, 2017)



Avaliação: NÃO GOSTO  




Entre aspas:

"(...) o misticismo é parente próximo do erotismo." (pág. 34)

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Khan al-Khalili (1946)
Naguib Mahfouz (1911-2006) - EGITO 
Porto: Civilização, 2011,  335 páginas
Tradução:  Badr Hassanien     






Khan al-Khalili é o nome de um bairro da parte antiga do Cairo, para onde se mudam os Akif - pai, mãe e filho -, em fuga do bairro de al-Sakakani, sob ameaça de bombardeio. Estamos em meados de 1941 e o conflito entre aliados e nazistas chega à África. Ahmad, pequeno funcionário público, arrimo da família, tenta se adaptar aos novos tempos e ao novo ambiente. O pai, aposentado e muito religioso, e a mãe, jovem e sociável, conformam-se rapidamente, enquanto Ahmad, intelectual frustrado, aproxima-se dos frequentadores do café al-Zahra: o calígrafo Nunu, o inspetor de ensino Suleiman Ata, os também funcionários públicos Kamal Khalil e Sayyeed Arif, o advogado Ahmad Rashid e Abbas Shiffa, "um dos homens importantes" da zona (p. 62). No café, passam o tempo jogando dominó, fumando narguilé e discutindo sobre os rumos da guerra. Ahmad Akif, solteiro aos 40 anos, conhece a jovem Nawal, de 16 anos, sua vizinha, filha de Kamal Khalil, e por ela se apaixona. Mas, tímido e inseguro, sente dificuldades em se declarar. Então, seu irmão caçula, Rushdi, bancário que trabalhava no interior, consegue uma remoção para a capital, e junta-se à família. Pouco a pouco, ele, sem saber da paixão secreta do irmão, conquista Nawal, causando grande decepção e frustração em Ahmad. Rushdi é noctívago e, embora se comprometa em casar-se com Nawal, continua frequentando prostitutas e perdendo dinheiro no jogo. Até que, por conta de sua vida desregrada, fica tuberculoso e morre. E os Akif - pai, mãe e filho - preparam-se para nova mudança, desta vez para o bairro de al-Zaitoum. Romance bastante previsível - o leitor antecipa em dezenas de páginas a troca que Nawal faz de Ahmad por Rushdi -, com diálogos artificiais e com uma irritante forma narrativa que produz parágrafos e parágrafos compostos apenas por perguntas (V. por exemplo o capítulo 24), é conduzido ainda por uma confusa passagem de tempo - a cronologia dos fatos não se ajusta muito à descrição que é feita deles. Por fim, o Autor parece escrever pensando em um leitor estrangeiro - a todo instante interpola explicações sobre costumes, gastronomia, vestuário...


(Julho, 2017)





Avaliação: NÃO GOSTO




domingo, 9 de julho de 2017

O rio e a guerra (1926)
Mikhail Cholokov (1905-1984) - RÚSSIA 
Porto: Campo das Letras, 2005, 103 páginas
Tradução:  Alexandre Bazine    




São cinco contos passados durante a Guerra Civil russa (1918-1921), tendo como cenário o curso inferior do rio Don. O Autor discute os impasses dos primeiros momentos da Revolução Soviética, a dificuldade de os camponeses compreenderem as mudanças que chegavam e os horrores do conflito entre comunistas e anticomunistas. "O poldro" narra o episódio de um soldado que tem que executar o filhote de uma égua nascido no meio de uma campanha militar e que, por tentar protegê-lo, acaba perdendo a própria vida numa escaramuça. "Sangue alheio" é a pungente a história de um casal de velhos que, tendo perdido o filho, um contra-revolucionário, acaba, ironicamente, adotando um soldado revolucionário ferido. Pouco a pouco, eles convergem todo o afeto ao filho morto para o rapaz. Este, que não tinha família,  permanece uns tempos na aldeia, até o dia em que os deixa para continuar a luta, em uma região distante. "A semente de Chibalak" expõe a terrível sina do soldado que dá título ao conto que um dia descobre uma grávida semimorta no campo de batalha e, apesar dos protestos dos companheiros, incorpora-a, junto com o bebê que nasce em seguida, ao grupo revolucionário. Até que descobrem que a mulher passava informações aos inimigos e exigem que Chibalak mate a mulher e a criança. Ele executa a ordem, mas poupa o bebê, deixando-o aos cuidados de uma família na retaguarda. Anna, a "Mulher de dois maridos", é casada com o contra-revolucionário Aliksandre, dado como morto por equívoco. Ela então se junta ao presidente da cooperativa local, Arséni, apaixonado por ela. Aliksandre ressurge na aldeia e Anna vai morar com ele novamente. Só que, bêbado e extremamente violento, trata-a com desprezo e arrogância. Anna decide fugir de casa, com o bebê recém-nascido, e é recolhido por Arséni. "Sobre Kaltchak, urtigas e outras coisas" é a tragicômica petição de um cidadão, Fidot, à assembleia comunal da aldeia, indignado pelo fato de sua mulher estar se alfabetizando e abismado com o fato de não ter mais direito de espancá-la. Neste livro, o Autor consegue não ceder aos princípios do chamado "realismo socialista", que pouco a pouco destruiria a literatura russa.


(Julho, 2017)



Avaliação: BOM



sexta-feira, 7 de julho de 2017

O chapéu de três bicos (1874)
Pedro Antonio de Alarcón (1833-1891) - ESPANHA
Lisboa: Assírio & Alvim, 2006, 149 páginas
Tradução:  Aníbal Fernandes   



Narrativa que resgata a tradição da "comédia de erros", trata-se de uma farsa passada em um lugarejo da Andaluzia em 1805. Em um moinho de farinha, "situado a qualquer coisa como a um quarto de légua da povoação" (p. 35), vivia o feliz casal Frasquita e tio Lucas, que "adoravam-se loucamente" (p. 45). Ela, que "andaria a rondar os trinta" anos (p. 39), era uma mulher "cheia de graça e formosura, e sempre radiante de saúde e alegria" (p. 39). Já o Tio Lucas "estava quase nos quarenta anos", e, simpático e agradável, "era feio como o Diabo" (p. 41). O casal recebia os maiorais da terra - o virtuosíssimo bispo, o corregedor, o erudito advogado, entre outros fidalgos e eclesiásticos - em uma "tertúlia vespertina" (p. 35), quando se fartavam com as frutas e legumes de época, todos atraídos na verdade pela beleza e sensualidade de Frasquita. Tio Lucas sabia disso e usava os dotes da mulher para obter vantagens. Um dia, Frasquita, incentivada pelo marido, resolve fingir aceitar as investidas do corcunda corregedor. Só que a brincadeira acaba dando errado e, por uma série de peripécias, tio Lucas passa a acreditar, equivocadamente, que Frasquita realmente cedeu aos amores e resolve se vingar. Roubando a roupa que encontra jogada na sala, dirige-se à casa do corregedor e tenta enganar sua mulher passando-se por ele. Após uma enorme confusão - com direito à clássica cena em que todos se estapeiam confundidos no meio da escuridão -, a cena final reorganiza o mundo que conheceu um momento de desequilíbrio. Frasquita perdoa tio Lucas e a mulher do corregedor lhe impõe uma sanção, que, depois de cumprida, devolve a paz ao lar. Um romance que, lido, a gente logo esquece - ou, talvez, se lembre de uma ou outra passagem, com um esgar no canto da boca...

   
(Julho, 2017)



Avaliação: BOM




A tela humana (1904-1911)
Saki (1870-1916) - INGLATERRA   
Lisboa:  Vega, 1995,115 páginas
Tradução:  Luís Alves da Costa


Seleção de 10 contos, feita pelo escritor argentino Jorge Luiz Borges (1899-1986), para a coleção Biblioteca de Babel. Dois deles são pequenas obras-primas da narrativa curta, ambos, aliás, protagonizados por crianças, nos quais elas emergem com todo o seu sadismo: "A janela aberta", que começa como um sugestão de loucura e finda com uma tragicômica solução; e o antológico "Sredni Vashtar", que acompanha a impressionante vingança de um menino, Conradin, contra sua prima e tutora, Mrs. De Ropp. Estes contos têm como marca a fuga da realidade pela imaginação - o que configura dois outros textos que transitam pelo mundo da infância: "O contador de histórias" e "O quarto de arrumações". A imaginação que leva à insanidade está presente também em "A tela humana" e "Cura de desassossego". Às vezes, a crueldade humana é substituída - ou completada - pela ironia do destino, como em "O silêncio de Lady Anne", "Gabriel-Ernest", "Os intrometidos" e "A paz de Mowsle Barton". Em todos eles, um clima fantástico permeia o real, mas um fantástico verossímil, concreto, palpável... E em todos eles, a solidão, a incomunicabilidade...


(Julho, 2017)



Avaliação: BOM  


quarta-feira, 5 de julho de 2017

O visitante da noite e outros contos  (1931)
B. Traven (1882?-1969?) - ALEMANHA (?)   
Lisboa: Antígona, 2014, 235 páginas
Tradução:  Manuela Gomes    





Este livro reúne 11 histórias - 10 delas passadas no México e uma na França. Bastante desigual, alguns textos nem se configuram como contos. "O padecimento de Santo Antônio", "Na ausência do padre", "Linha de montagem", "Um remédio eficaz" e "A sentinela" são casos, em que são expostos, de maneira algo folclórica, a sagacidade e a ingenuidade dos indígenas. "Uma história verdadeiramente sangrenta" nem isso é: trata-se de uma crônica na acepção mais literal do conceito. "Chamada noturna" e "A história de uma bomba" são contos razoáveis. O que salva o livro são a pungente história de afeto e traição entre um cachorro e o dono de um restaurante parisiense, em "Amizade"; a renovada história de pacto com o diabo, em "Macário"; e principalmente o aterrorizante e fantástico conto longo "O visitante da noite". O que mais me incomoda nas narrativas é que, por mais que perceba a simpatia que o Autor demonstra por suas personagens - a estima aparenta ser sincera -, sempre permanece o estranhamento do olhar superior do europeu, que chega mesmo a escapar em preconceito, como, por exemplo, na página 19, quando o narrador afirma: "(...) não nos esqueçamos que também um trabalhador índio pode ser inteligente". O próprio Autor/narrador parece ter consciência disso, quando confessa, à página 227: "É insensato pretender penetrar nos reais motivos que presidem aos actos cometidos pelos membros de uma raça que não é a nossa". Enfim, um livro que não me comove.


(Julho, 2017)



Avaliação: NÃO GOSTO  



Observações:

O nome do Autor, as datas de nascimento e morte e mesmo sua nacionalidade nunca foram conhecidas efetivamente, Há teses e conjecturas, mas não provas. Por isso, as interrogações...

Entre aspas:

"(...) somos muito mais respeitados se em vez de falarmos deixarmos que os outros falem. Ninguém está interessado na opinião de outrem". (pág. 148)

terça-feira, 4 de julho de 2017

Trinta anos (1961)
Ingeborg Bachmann (1926-1973) - ÁUSTRIA   
Lisboa: Relógio D'Água, s/d, 199 páginas
Tradução:  Leonor Sá    





Coletânea que reúne sete contos, entre eles uma verdadeira obra-prima, "Juventude numa cidade austríaca", na qual, em apenas 10 páginas, a Autora traça um painel completo e complexo da vida em uma pequena cidade antes, durante e logo após o término da Segunda Guerra Mundial. Outra narrativa magistral é "Entre assassinos e loucos", na qual a Autora mexe nas feridas abertas pelas atrocidades nazistas praticadas pela população austríaca. "A verdade" é um interessantíssimo tratado filosófico, a partir da obsessão de um juiz que busca a verdade, mas "quanto mais a persigo, mais longínqua ela se torna" (pág. 185). "Tudo", sobre o momento em que um homem se apercebe do fim do amor por sua mulher; "A um passo de Gomorra", que registra o nascimento de uma relação homossexual feminina; e o conto que dá título ao livro, que apanha um homem entrando na casa dos trinta anos, e que, "apesar de não poder descobrir em si nenhuma mudança, torna-se inseguro" (pág. 21), completam o volume. "O adeus de Ondina", que fecha a coletânea, é um libelo feminista, escrito numa redação ginasiana. O ponto alto do livro é o registro de uma prosa de ficção encharcada por uma linguagem altamente poética. 



(Julho, 2017)




Avaliação: BOM




Observações:

O Brasil está presente, de forma indireta, quando à página 112 um personagem, sem nome, relatando sua participação na Segunda Guerra Mundial, afirma: "Fomos para a Itália, para Montecassino. Era o maior matadouro que possam imaginar. A carne ali era de tal maneira para abate que se poderia pensar que seria divertimento para um assassino".

Entre aspas:

"Impossível um novo mundo sem uma nova linguagem" (pág. 57)

"Qualquer pessoa que ir para casa quando se sente a morrer (...)" (pág. 80)


segunda-feira, 3 de julho de 2017

Cavalo pálido, pálido cavaleiro (1939) 
Katherine Anne Porter (1890-1980) - EUA    
Lisboa: Antígona, 2014, 252 páginas
Tradução: Paulo Faria   




Este livro reúne três contos longos. O primeiro, "Velha mortalidade", é um exemplo de excelência da arte ficcional. Dividido em três partes, que cobrem os anos de 1895-1902, 1904 e 1912, a autora vai construindo e desconstruindo o retrato de uma personagem fugidia, Amy, que não aparece diretamente na história, mas somente por meio de frases e situações referidas pelos outros personagens. Quando se inicia a narrativa, Amy já é apenas uma fotografia de uma extravagante tia morta há muitos anos - e, no final, o que permanece é a imagem de uma mulher complexa, amada, invejada, inapreensível. O segundo conto, "O vinho do meio-dia", tem como cenário "uma pequena quinta no sul do Texas", entre 1896 e 1905 (a Autora adora datar com exatidão o tempo de suas narrativas). Um dia, Olaf Helton, um imigrante sueco, aparece nas terras dos Thompson oferecendo-se para trabalhar. Embora calado e introvertido, conquista o respeito e a admiração da família. Muitos anos se passam, até que surge na fazenda Mr. Hatch, um homem especializado em localizar e aprisionar loucos fugidos de hospícios em troca de dinheiro. Tentando proteger Mr. Helton, Mr. Thompson mata acidentalmente Mr. Hatch, enquanto Mr. Helton, buscando escapar, é assassinado pela turba enfurecida. Mr. Thompson é julgado e absolvido, mas acaba se suicidando, premido pela culpa e pela vergonha. O último conto, que dá título ao livro, se passa numa "cidade do Oeste" dos Estados Unidos, em plena Primeira Guerra Mundial. Miranda é uma jovem jornalista que conhece Adam, soldado que se prepara para ir lutar na Europa. Eles se apaixonam e sonham em viver juntos no futuro, em um mundo onde "não vai tornar a haver guerras" (p. 185). Miranda, no entanto, adoece com a gripe espanhola e perde o contato com Adam. Após se recuperar, recebe a notícia de que ele morrera da mesma doença no hospital da base para onde fora deslocado. Uma história tristíssima de descoberta da finitude, mas também de esperança. O que mais ressalta é a incrível capacidade da Autora de transitar por mundos completamente diferentes: o universo de classe média alta em "Velha mortalidade", a vida rural próxima da penúria em "O vinho do meio-dia", a difícil luta pela sobrevivência de uma jovem em início de carreira em "Cavalo pálido, pálido cavaleiro". Um livro soberbo!


(Julho, 2017)



Avaliação: OBRA-PRIMA


Entre aspas:




"(...) não nos atrevemos a dizer uns aos outros uma palavra que seja acerca do nosso desespero, somos animais mudos e deixamos que nos destruam". (pág. 201)


domingo, 4 de junho de 2017

Dom Gesualdo (1889) 
Giovanni Verga (1840-1922) - ITÁLIA   
São Paulo: Global, 1983, 289 páginas
Tradução: Vera Mourão   





Romance trágico, situado no começo do século XIX e tendo como cenário a Sicília, descreve a ascensão e queda de dom Gesualdo Motta, um pedreiro que, com muito trabalho e tino comercial, enriquece, tornando-se a maior fortuna da região. Embora astuto, pouco a pouco é enredado pela nobreza decadente, que lhe empurra a mulher, Bianca, frágil membro da tradicionalíssima e falida família Trao, e lhe impõe negócios nem sempre favoráveis. Dom Gesualdo afasta-se de seus parentes - o pai, Nunzio; a irmã Speranza e seus inúmeros filhos; o irmão Santo - e daqueles que estiveram com ele na construção de sua fortuna, particularmente Diodata, uma empregada com quem mantinha uma relação de concubinato, da qual nasceram dois filhos, Nunzio e Gesualdo. Barões e marqueses que moram em palacetes caindo aos pedaços e não têm o que comer adulam dom Gesualdo por causa do dinheiro, ao mesmo tempo em que o desprezam pela origem social. Bianca gera Isabella (provavelmente filha de um primo, o barão Antonio Rubiera - v. pág. 148), que dom Gesualdo, aspirando conquistar um lugar entre a nobreza por meio dela, desde cedo instala nos melhores colégios de Palermo. Durante uma epidemia de cólera, em torno de 1837, dom Gesualdo recolhe familiares, seus e da mulher, empregados e moradores das aldeias próximas em Mangalavite. Lá, Isabella mantém um escandaloso affair com um outro nobre falido, La Gurna, e acaba tendo de aceitar casar-se com um duque, cujo nome "ocupava duas linhas" (pág. 220), Alvaro Filipo Maria Ferdinando Gargantas di Leyra, que aproveita seu dote para pagar dívidas que se acumulam e contratar outras. A morte do pai e depois de Bianca desencadeiam uma demanda jurídica contra dom Gesualdo, liderada pela irmã, Speranza; os nobres mostram-se cada vez mais cínicos, interessados em sua fortuna; a filha se isola em um casamento de fachada; os filhos ilegítimos, tidos com Diodata, aderem a uma rebelião popular, os carbonários, contra os proprietários de terra, particularmente contra ele (rebelião, aliás, liderada por membros da nobreza falida, interessada em manter bens e principalmente poder). Dom Gesualdo compreende então a solidão de habitar um entrelugar - não é mais um pedreiro nem um camponês, mas também não é um nobre; nem sua estirpe permanecerá, pois, envergonhada, a filha usa apenas o sobrenome Trao, da mãe. No final, padecendo de um câncer no estômago, é levado para o sofisticado palácio do duque em Palermo, onde, sob a desculpa de ser tratado por médicos mais qualificados, é mantido encarcerado para não fazer um testamento, o que deixa Isabella como herdeira única de seus bens. Tristíssima narrativa, que expõe a hipocrisia social, o cinismo familiar, a desolação política.
  

(Junho, 2017)



Avaliação: MUITO BOM  



Observações:

1) São impressionantes as descrições da decadência das casas e das pessoas neste romance. E os capítulos finais, que narram a amargura, a solidão e a dor de dom Gesualdo, mantido praticamente como prisioneiro no luxuoso palácio da filha, é comovente.
2) O Brasil surge no nome de um dos empregados de dom Gesualdo, Brasil Camaura (p. 259).



Entre aspas:


"Quando se comete uma burrice, é melhor nada dizer, para não alegrar os inimigos". (p. 173)




terça-feira, 30 de maio de 2017

O viajante e o mundo da lua (1937) 
Antal Szerb (1901-1945) - HUNGRIA  
Rio de Janeiro: Ediouro, 2007, 293 páginas
Tradução: Paulo Schiller  





Estranho romance, esse. Narrado de forma realista, no entanto o clima que evoca é insólito. Neste sentido, configura-se bastante original, já que não se aproxima nem do fantástico, nem do absurdo - como se tudo estivesse envolvido em uma névoa de mistério e de acasos possíveis... Mihály e Erzsi estão passando a lua-de-mel na Itália. Erzsi separou-se do marido, Zoltán Pataki, um industrial bem-sucedido, para se casar com Mihály, filho de uma família burguesa de Budapeste. Mihály sente-se deslocado no mundo, perseguido por "instituições e o conflito alarmante dos anos passados" (p. 91). Após visitar Veneza, o casal está sentado em um café em Ravenna, quando surge, abruptamente, cavalgando uma motocicleta barulhenta, János Szepetneki, um amigo húngaro. Ele aparece, diz que outro velho amigo comum, Ervin, encontra-se retirado em um mosteiro na Úmbria, e some. Essa visita inesperada mudará o curso da viagem de núpcias. Mihály rememora para Erzsi um momento de seu passado, aquele em que, adolescente, na casa dos Ulpius, Tamás e Éva, junto com János e Ervin, encenavam uma vida rebelde completamente fora do tempo. Durante o deslocamento de Florença para Roma, Mihály desce numa estação em Cortona para tomar um café e entra no trem errado, indo parar em Perugia sozinho. Daí para a frente, vai aos poucos aceitando a ideia de romper com os padrões burgueses, casamento, dinheiro, valores. Descobre que Ervin tornou-se uma espécie de santo, o Padre Severinus, em Gubbio, e, por influência dele, decide aguardar em Roma que algo importante aconteça. Erszi, neste ínterim, encaminha-se para Paris, onde reencontra János, de quem se torna amante. Em Roma, Mihály entrevê Éva, quase como uma personagem incorpórea - ela surge e desaparece, sem que ele possa falar com ela. Mihály, pouco a pouco, transforma-se em um quase mendigo. Finalmente, consegue contato com Éva, que lhe conta como Tamás se matou, e resolve também se matar, sendo salvo na última hora por uma festa de batizado... Erzsi, que por um momento imaginou levar uma vida livre em Paris, retorna para Budapeste e casa-se novamente com Zoltán, enquanto Mihály é conduzido para casa pelo pai, aceitando o emprego burocrático na empresa da família, onde viverá "como os ratos entre as ruínas" (p. 293). De certa maneira, a narrativa reforça que na Europa, naquele momento, não havia lugar para rebeldes e rebeldia, o mundo se tornava mais e mais conformista e autoritário. 



(Maio, 2017)



Avaliação: BOM  



Observações:

1) A ideia mais interessante do "fantástico" no livro, infelizmente, não é nada original. O protagonista, Mihály, enfrenta, desde a infância, a sensação de que há um abismo a seu lado, o que lhe provoca pânico e uma total paralisia, física e mental. Algo de que padecia o filósofo e matemático francês, Blaise Pascal (1623-1662), que o poeta também francês, Charles Baudelaire (1821-1867), abordou no poema "O abismo" (V. Flores do Mal. Trad. Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985, p. 472-473)
2) Embora tendo como cenário a Itália e Paris, todos os personagens importantes do romance são húngaros, o que também ajuda a provocar um interessante estranhamento na narrativa.
3) Nos capítulos 2 e 3 da terceira parte ("Roma") há uma instigante exposição, pelo amigo de Mihály, Waldheim, sobre a morte na civilização ocidental, a partir da tese de que a "morte em geral foi parar entre os conceitos tabus" (p. 200).




Entre aspas:




"O amor exige uma distância, que os amantes percorrem para se encontrar. Naturalmente, a proximidade é apenas ilusória, porque o amor na realidade afasta. O amor é polaridade: os amantes são dois polos opostos do mundo". (p. 37)

"(...) todas as pessoas têm uma idade que lhes é a mais adequada". (p. 188)

"Nós recebemos da civilização um aparato espiritual pronto tão perfeito que durante a maior parte da vida esquecemos que um dia vamos morrer; aos poucos vamos excluir a morte da consciência como excluímos a existência de Deus". (p. 196)

"(...) os momentos e as situações mais marcantes da vida só [podemser evocados por expressões banais, e quem sabe não seriam esses, a despeito de tudo, os momentos mais banais". (p. 277)

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Meu companheiro de estrada (1894-1923)
Maksim Górki (1868-1936) - Rússia 
São Paulo: Editora 34, 2014, 397 páginas
Tradução: Boris Schnaiderman 






Esta coletânea reúne 16 contos, que abarcam todas as fases da vida literária do Autor, constituindo-se, portanto, em um panorama bastante significativo da qualidade de sua obra. E o resultado é decepcionante. Na maior parte das narrativas, o Autor não consegue se livrar do depoimento pessoal, em textos na primeira pessoa eivados de pieguice e idealização, conformando quase uma espécie de escrita beatnik avant la lettre. Seus personagens são vagabundos, prostitutas, mendigos, aproveitadores, marginais retratados em clave romântica, enquanto o ambiente é descrito de forma naturalista. A mescla de romantismo e naturalismo produz uma visão populista, que, ao invés de empatia, objetivo primordial da literatura, provoca no máximo piedade. Há dois contos que fogem ao caráter exclusivo de documento - a que, a rigor, se reduzem essas narrativas -: a história de veneração transformada em crueldade em "Vinte e seis e uma", e a estranha relação entre fortes e fracos, com um pano de fundo acerca do anti-semitismo russo, que encontramos em "Caim e Artiom". No mais, há apenas uma sequência de bons contos que perdem a força pela intromissão desnecessária do narrador, como "Por desfastio", "Na estepe" e "Uma mulher". Há que destacar a belíssima lenda incrustrada em "A velha Izerguil", a sombra que Larra se tornou, vagando pelo mundo, um Ahaverus moldavo. Panfletárias e reducionistas, as reportagens literárias do Autor têm mais importância como testemunho de uma época de horror e sofrimento que como obra de arte. O que prova que boas intenções não redundam necessariamente em literatura de qualidade.

(Maio, 2017)




Avaliação: NÃO GOSTO 




Observações:

De novo, minha implicância com os tradutores: por que não vertem as medidas de distância? Aqui, nos vemos às voltas com verstas e sájens, que não dizem nada ao leitor brasileiro. 


Entre aspas:




"Há pessoas para as quais o mais precioso e melhor na vida é constituído por alguma doença do corpo ou do espírito" (p. 182)

"(...) as convicções de pessoas esclarecidas são tão conservadoras como os hábitos de pensar da massa analfabeta e supersticiosa" (p. 373)


terça-feira, 2 de maio de 2017

1919 (1932)
John dos Passos (1896-1970) - Estados Unidos
São Paulo: Abril Cultural, 1983, 395 páginas
Tradução: Daniel Gonçalves




Um romance peculiar que, tendo a I Guerra Mundial como tema principal e quase único, não descreve cenas de batalha, não relata atos de heroísmo ou covardia, não passeia por cidades e paisagens arrasadas por bombas. O que avulta aqui é a discussão sobre os bastidores do conflito, os interesses econômicos das grandes corporações norte-americanas, as estratégias das nações envolvidas na conflagração para ampliar seus espaços de operação, e, de quebra, a brutal repressão, nos Estados Unidos, dos movimentos sindical e de esquerda (anarquistas e comunistas). Formalmente, o livro desenvolve-se em blocos: "Noticiário" (recortes de manchetes e trechos de matérias de jornais da época); "A lente objetiva" (fragmentos caóticos de personagens anônimos); biografias de personagens reais (o jornalista John Reed, o escritor Randolph Bourne, os presidentes Theodore Roosevelt* e Woodrow Wilson, o diplomata Paxton Hibben, o banqueiro J.P. Morgan, o líder anarquista Joe Hill, e o Soldado Desconhecido); e narrativas ficcionais. São cinco personagens principais: o marinheiro Joe Williams, que, depois de sobreviver a dois naufrágios causados por torpedeamentos de submarinos alemães, morre estupidamente numa briga; Richard Ellsworth Savage, um sujeito de classe média baixa, criado sem pai, que, indo para a França como voluntário para dirigir ambulâncias, acaba capitão do Exército, vivendo à grande entre missões do correio; Eveline Hutchins, filha de um médico, que, após um rápido flerte com ideais esquerdistas, entra como voluntária na Cruz Vermelha em Paris; Anne Elizabeth Trent (Filhinha), de família de fazendeiros texanos, que se envolve, por causa do namorado, com grevistas e pacifistas, e que vai então para a Itália prestar serviços na instituição metodista Organização de Auxílio ao Próximo Oriente; e Ben Compton, jovem judeu que se torna líder sindical e, por conta de sua militância, é condenado a dez anos de prisão. Entremeadas a essas biografias, vários outros personagens entrecruzam-se - exceto o marinheiro Joe Williams e Ben Compton, cujas narrativas não se comunicam com nenhuma outra. É curioso que, para essas personagens, a guerra surge como uma oportunidade de "excursão gratuita" (p. 172) pela Europa. Eles se divertem, bebendo, comendo, transando, alheados e alienados da matança desenfreada que ocorria a poucos quilômetros de onde estavam instalados. A Conferência de Paz de Paris, que se estende por todo o ano de 1919 (daí o título do livro), e que põe fim efetivamente à Primeira Guerra Mundial, significa uma "gigantesca era de expansão (...) para a América lleia-se, Estados Unidos}" (p. 190), já que "o único meio de assegurarmos para o mundo os benefícios da paz consiste em dominá-lo" (p. 261). Ou, como explica Dick (Richard Savage) a Anne Elizabeth (Filhinha): "somos os romanos do século vinte" (p. 313). Ao contrário, o ativista Ben Compton argumenta que "os governos capitalistas estão (...) empurrando o povo para o matadouro numa guerra louca e desnecessária que não beneficia ninguém, salvo os banqueiros e os fabricantes de armamentos" (p. 371). Mas, "ser vermelho em 1919 era pior do que ser germanófilo ou pacifista em 1917)" (p. 381)... Um romance sempre atual...


Avaliação: MUITO BOM  

(Maio, 2017)


Curiosidade

* O Brasil surge à pág. 124, na biografia de Theodore Roosevelt.



domingo, 23 de abril de 2017

A ponte sobre o Drina (1945)
Ivo Andric (1892-1975) - BÓSNIA    
Tradução: Lúcia e Dejan Stankovic      
Lisboa: Cavalo de Ferro, 2016, 384 páginas



Magnífica reconstrução da conturbada história da Europa (e de sua extensão, o Oriente Médio), por meio da crônica de acontecimentos ordinários ocorridos às margens do rio Drina - mais precisamente, à cabeceira da ponte que se ergue majestosa sobre ele, em terras onde os mundos cristão e muçulmano se confundem, a Bósnia. O Autor deixa de lado os heróis e anti-heróis para se dedicar aos anônimos habitantes de Visegrad, que ao longo de quase 400 anos observam, na maior parte do tempo passivamente, a História desfilar à sua porta. O livro começa na segunda década do século XVI com a edificação da ponte de pedra - cerca de 200 metros de comprimento e oito de largura - pelo grão-vizir Mehmed Paxá, uma espécie de primeiro-ministro do Império Otomano, nascido nas imediações e convertido à força aos 10 anos. Enfiados em suas casas de comércio, os membros das comunidades muçulmana, cristã ortodoxa e judaica vivem em harmonia, mas sujeitas a decisões políticas tomadas longe dali, que acabam repercutindo, às vezes com mais, às vezes com menos intensidade, em seu cotidiano. Situada na fronteira com a Sérvia, os moradores de Visegrad conhecem tempos de fartura e de paz, mas também de crise e de guerra. As lembranças incluem grandes inundações, casamentos memoráveis, bêbados que caminharam pelos arcos da ponte, batizados atrasados por festas, amores frustrados, amizades frustradas, vidas frustradas. E conflitos: as rebeliões da população sérvia; o começo do desmantelamento do Império Otomano, em meados do século XIX, quando a região torna-se protetorado do Império Autro-Húngaro; a anexação pelo Império Autro-Húngaro, em 1908; e, finalmente, o atentado contra o arquiduque Francisco Ferdinando, em Sarajevo, capital bósnia, em 1914, que dá início à Primeira Guerra Mundial, a mais terrível de todas as guerras. O romance termina justo aqui, nos primeiros meses da conflagração que causou a morte de milhões de jovens, que o Autor assim brilhantemente sintetiza: "O que a caracterizava particularmente é que há muito tempo não surgia uma geração que tivesse sonhado mais com a vida e da vida falado mais e com mais audácia, bem como dos prazeres e da liberdade, e que, ao mesmo tempo, tão pouco tivesse recebido da vida, mais tivesse sofrido, mais fosse escravizada, morrendo pelos seus ideais" (p. 280).
     

(Abril, 2017)




Observações:

1) Não compreendo a capa deste livro: a personagem principal e única é a ponte que empresta o título ao volume, e a figura que a ilustra leva-nos, erroneamente, a imaginar que é uma história sobre um líder turco ou, no máximo, sobre o Império Otomano...  

2) Entre as páginas 39 e 52, há uma descrição impressionante da tortura e empalamento, pelos turcos, de um cristão ortodoxo que tentou sabotar a construção da ponte. 


Avaliação: MUITO BOM